Quando investigamos uso de substâncias no consultório, é comum ouvirem dizer que gostam de tomar uma taça de vinho no fim do dia para relaxar.Para algumas pessoas é a cerveja depois do trabalho, para outras é uma bebida antes de dormir ou antes de sair com os amigos porque sentem que ficam mais soltas e conversam com mais facilidade.
Beber faz parte de muitas situações sociais e nem todo consumo de álcool significa dependência. Devemos ficar atentos quando, aos poucos, a bebida deixa de ser apenas uma escolha e começa a funcionar como uma forma de lidar com aquilo que estamos sentindo, como “beber pra esquecer os problemas”.
Uma coisa é beber uma taça de vinho porque você gosta. Outra é perceber que está precisando daquela taça para conseguir relaxar.
Essa diferença é importante.
O álcool age no sistema nervoso central e, inicialmente, pode realmente produzir sensação de relaxamento, diminuir a inibição e facilitar a interação social. É justamente por isso que algumas pessoas começam a utilizá-lo para aliviar ansiedade, tensão ou desconforto em situações sociais.
Com o tempo, ocorre tolerância e aquela quantidade que antes era suficiente já não produz o mesmo efeito e a pessoa passa a beber um pouco mais. E nem sempre isso acontece de maneira evidente. As vezes foi só uma taça que ficou maior, uma segunda dose que passou a ser habitual ou dias de consumo que foram sendo acrescentados à semana.
O sono é outro ponto que costuma confundir bastante. Há pessoas que dizem que bebem porque dormem melhor. De fato, o álcool pode facilitar o início do sono, mas isso não significa necessariamente dormir melhor. Ele prejudica a qualidade e a organização do sono ao longo da noite, favorece despertares e faz com que a pessoa acorde menos descansada. Em alguns casos, cria-se um ciclo: a pessoa está ansiosa ou exausta, bebepara conseguir dormir, dorme mal, passa o dia mais cansada e, à noite, volta a procurar a bebida para relaxar.
Isso não significa, por si só, que exista dependência. Significa que vale prestar atenção à relação que está sendo construída com a bebida.
Não existe uma linha única que separe, de um dia para o outro, o consumo social de um padrão problemático que merece atenção médica. Por isso, além da quantidade e da frequência, é importante observar perda de controle, aumento do consumo, dificuldade de reduzir, prejuízos no trabalho ou nos relacionamentos e a sensação de precisar do álcool para conseguir dormir, relaxar, socializar ou lidar com emoções difíceis.
Para quem ficou em dúvida sobre a própria relação com a bebida, trouxemos um questionário breve chamado CAGE, que é utilizado como instrumento de rastreamento para problemas relacionados ao uso de álcool.
Responda sim ou não:
1. Você já sentiu que deveria diminuir a quantidade de bebida?
2. As pessoas já o incomodaram fazendo críticas ao seu modo de beber?
3. Você já se sentiu culpado pela maneira como costuma beber?
4. Você já tomou bebida alcoólica pela manhã para diminuir o nervosismo ou uma ressaca?
Duas ou mais respostas positivas indicam a necessidade de uma avaliação mais cuidadosa do padrão de consumo e até uma avaliação profissional.
No fim das contas, talvez seja menos importante perguntar apenas “quanto eu bebo?” e mais útil observar também “para que eu estou bebendo?”.
Porque, às vezes, a mudança mais importante não está no tamanho da taça. Está no espaço que ela começou a ocupar na vida.




