A eleição de 2026 no Ceará nem começou oficialmente, mas uma palavra já domina o debate político: traição.
E não é exagero. Basta acompanhar os discursos. De um lado, Ciro Gomes. Do outro, o grupo formado por Camilo Santana e Cid Gomes. Gente que esteve no mesmo palanque por quase duas décadas e que hoje disputa não apenas o Governo do Estado, mas também a narrativa sobre quem abandonou quem.
Mas eu quero propor uma reflexão.
Trocar de grupo político, por si só, não é traição. Isso acontece o tempo inteiro. Política é construção de alianças, rompimentos, novas composições. Faz parte do jogo democrático. O problema não é mudar de lado. O problema é quando o discurso muda junto com a conveniência.
É justamente aí que a discussão fica interessante.
Ciro afirma que foi traído no rompimento entre PDT e PT. Já Camilo diz que quem rompeu os acordos foi o próprio Ciro ao insistir na candidatura de Roberto Cláudio, quando havia entendimento em torno do nome de Izolda Cela. No fim das contas, os dois lados usam exatamente a mesma acusação: “o outro traiu”.
E quem acompanha a política de fora fica com uma pergunta inevitável: afinal, quem traiu quem?
O episódio envolvendo Mauro Filho joga ainda mais lenha nessa fogueira. Depois de anos ao lado de Ciro, ele deixou o PDT, migrou para o União Brasil e passou a reforçar o bloco de oposição. A reação foi imediata. Cid Gomes disse ter se decepcionado, falou em falta de lealdade e criticou a mudança.
Só que aí surge outra questão. Se mudar de grupo é motivo para chamar alguém de traidor, quantos dos políticos que hoje fazem esse discurso escapariam da própria acusação? Porque a política cearense é cheia de personagens que já trocaram de partido, de alianças e até de adversários ao longo da carreira.
É por isso que talvez a palavra “traição” esteja sendo usada muito mais como estratégia eleitoral do que como princípio político.
No fim, o eleitor talvez nem queira saber quem mudou de lado. O que ele quer saber é outra coisa: quem consegue explicar essa mudança sem contradizer tudo o que dizia ontem?
Porque mudar de posição pode fazer parte da política.
O difícil é convencer o eleitor de que essa mudança aconteceu por convicção, e não apenas porque o tabuleiro mudou.




