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Quase metade dos casos de demência poderia ser evitada. O que estamos deixando para depois?

Estudos da The Lancet reforçam que cuidar do cérebro não é uma preocupação que começa na velhice. Pressão alta, colesterol, sedentarismo, depressão, perda auditiva e isolamento social estão entre os f

Dra. Raquel Nascimento
Por DRA. RAQUEL NASCIMENTO
· 2 min de leitura
Quase metade dos casos de demência poderia ser evitada. O que estamos deixando para depois?
Quase metade dos casos de demência poderia ser evitada. O que estamos deixando para depois?FOTO: REPRODUÇÃO / ACERVO TV RUSSAS

Quando falamos em prevenção de demência, é comum imaginar uma pessoa já idosa fazendo palavras cruzadas, tentando exercitar a memória ou buscando alguma forma de evitar o Alzheimer.

Mas os estudos sobre demência mostram que a prevenção começa muito antes do envelhecimento, pois uma parte importante do risco está relacionada a fatores potencialmente modificáveis, presentes desde a juventude e a meia-idade.

Em julho deste ano, pesquisadores publicaram um grande estudo realizado na Dinamarca, acompanhando dados de mais de 1,7 milhão de pessoas. Foram avaliados 16 fatores potencialmente modificáveis e sua relação com o desenvolvimento de demência após os 65 anos.

A Comissão Lancet sobre prevenção, intervenção e cuidados em demência já havia reunido 14 fatores de risco modificáveis e estimado que atuar sobre eles poderia prevenir ou adiar até 45% dos casos de demência. Entre os fatores que apareceram no estudo estavam depressão, doenças cardiovasculares, diabetes, alterações do sono, perda auditiva, colesterol elevado, hipertensão, sedentarismo, tabagismo, isolamento social e obesidade.

Isso não significa, evidentemente, que uma pessoa que apresente algum desses fatores desenvolverá demência. Também não significa que todos os casos possam ser evitados. Genética, envelhecimento e outros mecanismos que ainda não compreendemos completamente continuam tendo papel importante.

O que essas pesquisas mudam é a maneira como pensamos a prevenção, pois cuidar da pressão arterial aos 45 anos poderia parecer uma preocupação exclusivamente cardiovascular, bem como manter atividade física, tratar adequadamente a depressão, controlar o diabetes ou preservar vínculos sociais também costumavam ser vistos como cuidados separados.

Acontece que para o cérebro, porém, essas histórias se encontram.

Talvez uma das informações mais importantes desses estudos seja justamente a noção de tempo. Algumas das condições associadas ao risco de demência começam a exercer influência décadas antes de alguém apresentar esquecimentos importantes.

Por isso, saúde cerebral não deveria ser uma preocupação exclusiva de quem envelheceu.

Quando uma pessoa de 30 ou 40 anos trata a hipertensão, pratica atividade física, cuida da saúde mental, não fuma e mantém acompanhamento adequado de doenças metabólicas, ela não está pensando necessariamente em como estará sua memória aos 75 anos. Mas também está construindo, naquele momento, parte das condições em que seu cérebro envelhecerá.

Não conseguimos escolher nossa genética nem impedir o passar dos anos. Há, porém, uma parte dessa história sobre a qual podemos agir. E talvez estejamos começando tarde demais quando deixamos para pensar na saúde do cérebro somente depois que a memória começa a falhar.

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