COLUNISTAS / AIRTON MARANHÃO (IN MEMORIAN)

O chorume maldito dos russanos

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Airton Maranhão (in memorian)

04/08/2014

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Não existe nada mais lindo nos cenários naturais que a revoada das garças ao pôr do sol, sobre as casas da cidade de Russas. Num entardecer encantador de rara beleza, que para pretensão de uma produção poética, o cenário lírico, caracteriza o estilo de uma obra-prima. Sobretudo pela leveza do vôo das garças em revoada, a se aninharem para dormir no seu habitat natural, que é a lagoa Caiçara, ou na pequena comunidade de Alto São João, que fica a três quilomentros do centro da cidade. Que de tão perniciosa e triste, no contraste do sublime e do belo, das pétalas das flores ao miasma da carniça, tornou-se um lugar bizarro, estranho e sombrio. Com algo mais de tenebroso, que se compõe numa vala retangular de 200 por 150 metros, encoberta de sujidade, pela nuvem de poeira negra de imundície. Infestada de baratas, moscas, mosquitos, ratos, cabras, cachorros, porcos, urubus, em oposição com a presença encantada das garças que pousam nos lombos dos suínos, para saborearem da refeição abundante e festiva. E porcos soltos em rebanhos, por seus criadores, alimentam-se de detritos, fuçando em meio à putrefação. Naquela vala a céu aberto, ferve o alcatrão putrefato do lixão maligno, que se afunda num aterro sinistro, como uma espécie de caldeirão terrificante, com portões abertos para aflorar as maiores catastróficas das doenças mortais, para fulminar os seres humanos. Que, como atração da pestilência infectuosa, pode ainda, ocasionar a explosão oculta do reator maligno. Artefato mortífero, que há muito tempo germina sem nenhum tratamento específico na terra das éguas-ruças. Lugar do demônio, que como esgoto poluente, produz o infernal chorume. Que não adianta mais chorar nem se benzer pela desobrigação de aterro sanitário! O chorume gerou todas as formas de insatisfação. Primeiro porque, para salvaguardar somente a educação, com muita pompa de politicagem, edificaram o Campus da Universidade do Ceará (UFC), sem ao menos pensar na saúde do povo russano. Para em seguida, com pouca vontade dos políticos interesseiros, deixar crescer quase no centro da cidade, a maldita bomba do maquiavélico lixão. Sem nem mesmo imaginar que a qualquer momento, a nossa cidade poderá ser abandonada como ocorreu com Chernobyl. Isso pode acontecer somente com a explosão do majestoso reator do lixão de chorume. Não pense que chorume é pranto ou “lágrima de crocodilo”. Nem o odor mais desagradável do mundo. E muito menos o misterioso feromônio ou perfume das flores. Que pense os medíocres! Chorume é mais assombroso do que coisa macabra, de espanto e medo, com o acúmulo de lixo hospitalar, restos de alimentos,, entulho e fezes, presentes no portão do município, a produzir bactérias e fungos. Bem que poderia ser a lágrima dos medíocres, dos oportunistas ou dos vigaristas. Para não enxergar apenas uma parte do município. Chorume é aquele líquido mal-cheiroso, nauseabundo e terrível, dezenas de vezes mais poluente que todos os esgotos da cidade. E muito mais, pelo que se descompõe em matéria orgânica apodrecida, com substâncias químicas e metais tóxicos. Que causam doenças respiratórias e contaminam o solo e os lençóis freáticos. Como os rios subterrâneos que jogam água nos lagos, nos mangues e nos mares. Chorume é um líquido escuro, com alta carga poluidora que transforma e ocasiona mortalmente diversos efeitos no meio ambiente. Transmite dengue, febre tifóide, cólera, disenteria, peste bubônica e leishmaniose. E assim, Russas cresce com a criminalidade, com a (UFC) e com os políticos displicentes, que ao mesmo tempo se desordenam, sem surpresa e perplexidade, diante da imundície do lixão, a adiar o destino das usinas de reciclagem. Enquanto os moradores da comunidade de Alto São João, na vida corriqueira com seus ratos, urubus, garças e criação de porcos, festejam na sobrevivência macabra do mundo pestilento. Destino de todos os lixos de Russas. Detritos, comidas podres e entulhos que são jogados em meios aos resíduos hospitalares. Que mesmo queimados, fazem mal à saúde pública, por causa do gás carbônico produzido, que é mortal e muito tóxico. Enquanto a saúde, que está relacionada a estilo e qualidade de vida, bem-estar, físico, mental e social, educação, habitação e alimentação saudável, na comunidade de Alto São João, onde garças pousam no lombo dos porcos, que fuçam os detritos, para na engorda serem sacrificados e consumidos pela própria comunidade, não edificaram nada. Nem mesmo um posto de saúde. Que por relatos, muitos daqueles suínos são vendidos para os açougues de Russas. Quem está cometendo crime? Na Lei dos Crimes Ambientais, destinar os resíduos em lixões, é crime. O lixão de Russas, não é o paraíso da Arca de Noé. Sem entender os enigmas da natureza na bservação de cenas de miséria e de impureza, borboletas coloridas e pássaros estranhos, sobrevoam sobre o espaço triste, fétido e obscuro do lixão. Que faz lembrar o professor padre Venceslau Xavier de Lima, que dizia para os alunos do Colégio Flávio Marcílio: ”antigamente, a lagoa Caiçara era berço de baleia gigante.” História que muitos russanos ainda contam, assim como os seus ex-alunos. E ainda do mesmo padre: “aqui em Russas a três quilomentos do centro da cidade, existe o local do Paraíso de onde Adão e Eva foram expulsos.” Aquele local sagrado, deve ser o que povoa a comunidade de Alto São João.

Airton Maranhão (in memorian)

.Originário de Russas – CE. Formado em Direito pela Universidade de Fortaleza – Unifor, advogado militante da Comarca de Fortaleza, e romancista. Livros publicados: Deusurubu, Admirável Povo de São Bernardo das Éguas Ruças. Romances: A Dança da Caipora, Os Mortos Não Querem Volta e O Hóspede das Eras. Membro da ARCA – Academia Russana de Cultura e Arte.

Airton Maranhão (in memorian)

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