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COLUNISTAS / AIRTON MARANHÃO (IN MEMORIAN)

O Relojoeiro Juju

Óticas Diniz

Airton Maranhão (in memorian)

09/03/2015

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Quem enxerga além do tempo, está a um passo à frente da ciência, para observar a maçã cair da árvore e descobrir a Lei da Gravitação Universal. Como não precisou ser leigo, herói, vilão, apenas um gênio, como Isaac Newton (1642-1727). Assim como Joaquim Torres Ferreira, de alcunha Juju, relojoeiro extraordinário de Russas, que seguiu as pegadas do tempo, sem desprezar o mais importante patrimônio histórico e cultural da terra de São Bernardo das Éguas Ruças. Que faz lembrar o poema: "O Tempo", de autoria do cachaceiro Batente, o mais estranho poeta russano. Que nas festas natalinas, bebendo cachaça com Agostinho Cabeludo e o coveiro Jabatão, declamava no passar a noite rodando o carrossel do Antônio da Marta. Poema que também declamava ao sair do majestoso Pavilhão, monumento arquitetado com dois pavimentos, que na parte de baixo funcionava um posto de combustível, na parte de cima, o mais tradicional bar da boemia da elite intelectual de nossa cidade. Localizado na praça Monsenhor João Luiz, defronte a Igreja Matriz, de Nossa Senhora do Rosário, de Russas. E o mais incrível era a declamação que o poeta Batente fazia, ao conferir as horas, no majestoso relógio da Coluna da Hora, no centro da praça, um dos principais cartões-postais, um dos maiores símbolos do município. Declamava para o seu "horológio", e da mesma forma, para o relógio da Coluna da Hora, de sua autoria, o mais famoso poema "O Tempo": "O tempo perguntou ao tempo/quanto tempo tinha o tempo/e o tempo respondeu pro tempo/que não tinha tempo de responder pro tempo,/ sem tempo". Quando mal sabia o estranho poeta Batente, que chamava o seu velho Rosskopf de "horológio", que a palavra relógio era simplificação do original "horológio". E que este, especificamente, tratava-se de um grande relógio incrustado numa torre, assim como o da Coluna da Hora. No entanto, o poeta Batente declamava para esse Monumento, inaugurado em 1940, na gestão do Prefeito Manuel Matoso Filho. Composto com uma memorável placa, que assim diz: "Junho de 1940, interventor Federal do Estado Dr. Francisco Menezes Pimentel. Prefeito Municipal Manuel Matoso Filho. Homenagem ao Cap. Manuel Cordeiro Neto, Secretário de P. S. Pública. Relógio oferecido à municipalidade pelos russanos, por intermédio da Comissão: Francisco Cordeiro Júnior, Joel da Fonseca Lobo, João Vital Ferreira Lima, Francisco Ezonam de Santiago, Edvaldo Leite de Oliveira, Custódio Primo Guimarães, Joaquim Torres Ferreira, Vicente Leite de Oliveira, José Delfino Júnior, José Matoso de Oliveira, Dioclécio Agostinho de Souza, Mário Milton Torres Ferreira, José Ramalho de Oliveira, Francisco Maia Perdigão, João Batista Ferreira Lima". E foi por conta desses nobres russanos que o relógio da praça Monsenhor João Luiz, por muitos anos, vem sendo um dos principais pontos de referencias de nossa cidade. Mas sua existência deve-se ainda mais à genialidade do relojoeiro Juju, que nunca errou no seu conserto, nem por um milésimo de segundo mais preciso, sempre com um passo à frente do seu tempo. E que, indiscutivelmente, especializado nos mecanismos da engrenagem, por conseguir realizar todas as práticas e técnicas relacionadas às suas funções, sem manipular o tempo. Somente o extraordinário relojoeiro Juju, era quem atuava no ramo de montagem, desmontagem e conserto do relógio da Coluna da Hora, de Russas. Por conhecer, com precisão notável, o segredo do movimento das engrenagens, da fonte do pêndulo e da temporização do relógio, com técnica, peças de reposição, manutenção e reforma, com demonstração de perícia e habilidade. Para acertar as horas nos métodos de medição do tempo. Resultado primoroso do tempo e do espaço, conectados no que faz parte do cosmo, no intervalo constante de movimento para mostrar os segundos, os minutos e as horas. Sempre mantendo a estrutura física original do relógio, sem modificar a imagem tradicional, que os russanos tinham ao escutar o som de suas badaladas. Badaladas que se ouvia além do rio Jaguaribe. E, por falar em rio Jaguaribe, que vem do tupi-guarani, significa rio das onças. Que lhe rendeu o título de "maior rio seco do mundo".  Por ele, o poeta e jornalista Demócrito Rocha, ditou o poema: "O rio Jaguaribe é uma artéria aberta, por onde se escorre e se perde todo o sangue do Ceará. O mar não se tinge de vermelho, porque o sangue do Ceará é azul...". E assim, pintando a vida com as cores do rio Jaguaribe, sem usar equações, lápis e papel como Einstein, Juju penetrou no túnel do tempo, através da engrenagem, dos impulsos eletrônicos da magia, dos mitos e da narrativa popular, através das descrições vividas, simultaneamente, com o relógio criatura. A despertar o valor do grandioso relojoeiro, que dispondo apenas de tecnologia precária para o seu tempo, conseguiu se especializar na elaboração de consertos do relógio da Coluna da Hora, da praça Monsenhor João Luiz. Trunfo conhecido de se contar história para engrandecer nossa terra. Não com imaginação e fantasia de paquidermes metálicos, depredadores dos patrimônios históricos do município. Que um dia, por conta desses desesperançosos, através de suprema humilhação de impérios galácticos, sem contemplação, os russanos nunca mais possam ouvir as badaladas do relógio da Coluna da Hora.

Airton Maranhão (in memorian)

.Originário de Russas – CE. Formado em Direito pela Universidade de Fortaleza – Unifor, advogado militante da Comarca de Fortaleza, e romancista. Livros publicados: Deusurubu, Admirável Povo de São Bernardo das Éguas Ruças. Romances: A Dança da Caipora, Os Mortos Não Querem Volta e O Hóspede das Eras. Membro da ARCA – Academia Russana de Cultura e Arte.

Airton Maranhão (in memorian)

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