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COLUNISTAS / AIRTON MARANHÃO (IN MEMORIAN)

As velas do Zé Maria do Zé Ramalho

Óticas Diniz

Airton Maranhão (in memorian)

13/02/2015

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À medida que envelhecemos a chama de nossa vela torna-se mais forte, e viva, diante das trevas e dos abismos da escuridão. E para que a luminosidade dessa luz nunca se apague nas sombras da noite, devemos mantê-la eternamente acesa, como a luz das estrelas. Eterna como a realidade da vida no irreal fabulatório noturno, ao dedilhar o rosário do tempo. Como na minha infância, originou-se o drama da vida humana. Naquele tempo, a noite era diferente na cidade de Russas. Quando o comerciante Tarcísio Mendonça desenterrava botija na casa mal-assombrada da velha Elisa, no caminho do cemitério. A índia Maravilha virava mula sem cabeça, e como mulher de padre, assombrava o povo russano. Mendigo Bunda-de-Couro devorava crianças no poço do velho André. Doido Raimundo Mamão dava bundacanasca na lagoa Caiçara, para acordar os finados. Malavéia jogava cangapé no cemitério, com a Rita do Maneiro, ao praticar amor nos ataúdes. Mentiroso velho Moacyr, contava histórias que o arrombador de portas, lobisomem Chico Ensebado, brechava as mulheres dormindo. Ermitão Dedé Pereira observava lagarta virar borboleta, cobra mudar de pele e urubu nascer com penugem branca. Cachorrada do Tibira acuava lobisomem na Cruz das Almas. Zé Guilherme, Homem-do-saco, roubava os meninos do circo. Jumento do João Buema anunciava a meia-noite, relinchando as doze badaladas do relógio da Coluna da Hora. Galo do Vicente Leite abreviava o amanhecer com seu canto horripilante. Papa-hóstia Adália, com a cabeça envolta no véu, benzia o Zé Caluca, rezando pai-nosso. Soldado Zé-do-Ouro puxava fogo, para surrar as raparigas no cabaré da Chica do Baiano. Dudu do Patronato vigiava as internas, para evitar o assédio do rabo-de-burro Piru. Assis Doido ficava mais doido ainda, com o canto triste da mãe-da-lua. Mariquinha Edílson do Esdras dava rabissaca para irar o boêmio-galã Chico Lira. Moganguento monstro Zebiu, aterrorizava o delegado Zé Barbosa, com gemido maquiavélico. Doido Zé do Peto piscava cão raivoso para correr atrás da lambreta do Galeno. Ceguinha fazia cafuné no Doidão do carro do lixo, do Coração, para amansar o bicho hercúleo. Sonâmbulo Cosmildo acordava com o bicho rosnador no sítio de laranjas do Seu Deco. Soldado Crica, tentava a sorte na Casa de Jogo de Azar do velho João Maravilha. Sapateiro Deliras, abufelava a Caçota, atrás da igreja matriz. Bibia do caritó corria atrás da prostituta Espingarda, para ofertar hóstias, cantar ladainha e bendito. Zé Onório desafiava o delegado Araújo, para mostrar que era macho. Doido mestre Oclídes zombava do andar do Assis do Cacete. Rantizal Pobre gritava leilão nas quermesses do padre Valério, para o arrematante votar no partido "Vermelho" ou "Azul". Assis Cabeludo rodava na noite de festa, o carrossel do Antônio da Marta. Na minha infância, estudava sob a luz de uma vela. Menino atrevido era bom de peia. Moça faladeira era sirigaita. Briga de fedelho era trocar de insulto ou de tabefe. Só os bestas amarravam as camisas para se esfaquearem. E a carta de abêcê era um mistério estrambótico. Errar argüição e levar bolo de palmatória era infernal. Ler Jeca Tatu era sinal de inteligência. Qualquer malinação pagava-se de joelhos sobre caroços de milhos. Educação era meter a chibata, descer a ripa e ninguém virava bandido. Sonhar, ah! Sonhar! Sonhar com a indecência era peraltice, era pecado mortal. Beata ouvir novela ao pé do rádio, que estapafúrdio! Na infância criávamos curupira, papagaio, canário, cabeça-fita, sabiá, e soltávamos barquinho de papel à margem do riacho Araibu, para ouvir o canto da sereia e transar com Iara. Enquanto vela acesa numa cabaça, solta na correnteza do riacho, encontrava vítima de afogamento. "Vela acesa, definia a real noção dos mortos". Indiferente da lua que falseia a fonte da sua luz que clareia as catacumbas do cemitério. Aquela lua, que incrivelmente sinistra no contraste arrebatedor de sua beleza, não encantava mais que a chama da vela, que iluminava mausoléu, cova e os túmulos dos mortos, que repousavam no Cemitério dos Bons Aflitos, de Russas. Eram as velas do Zé Maria, que trabalhava na bodega do Zé Ramalho, que vendia na passagem do dia de Todos os Santos, noite anterior aos Dias de Finados. A partir da meia-noite, com várias caixas cheias de velas, algumas acesas, na calçada da bodega do Campelim. Zé Maria gritava: "olha a vela para celebrar a passagem do dia de Todos os Santos." Naquela noite surgiu o comércio de velas, para lembrar a luz de Deus e iluminar a existência dos mortos, no cemitério de Russas. Idéia do "Zé Maria do Zé Ramalho", como era conhecido. Velas que desmistificaram as superstições, o medo e o sobrenatural, nos dias de finados, por clarear mais que a lua cheia. No cemitério de Russas não havia luz elétrica, somente a escuridão da noite. No silêncio consagrado aos finados, as covas, túmulos, mausoléus e as catacumbas, passaram a ser iluminadas com a luz das velas do Zé Maria do Zé Ramalho. Quando, por algumas cachaças, o coveiro Jabatão passou a limpar túmulos, rebocar sepulturas, pintar tumbas e plantar roseiras nas covas. Assim, como as sepulturas, a serem cuidadas pelos familiares dos mortos. Quando não havia venda de jarros de flores artificiais e de coroa de flores, somente a luz das velas que Zé Maria do Zé Ramalho vendia para celebrar a passagem do dia de Todos os Santos, no Cemitério dos Bons Aflitos, de Russas.

Airton Maranhão (in memorian)

.Originário de Russas – CE. Formado em Direito pela Universidade de Fortaleza – Unifor, advogado militante da Comarca de Fortaleza, e romancista. Livros publicados: Deusurubu, Admirável Povo de São Bernardo das Éguas Ruças. Romances: A Dança da Caipora, Os Mortos Não Querem Volta e O Hóspede das Eras. Membro da ARCA – Academia Russana de Cultura e Arte.

Airton Maranhão (in memorian)

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