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COLUNISTAS / AIRTON MARANHÃO (IN MEMORIAN)

Altaney: O assassino de beija-flor

Óticas Diniz

Airton Maranhão (in memorian)

27/01/2015

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Os beija-flores têm a convivência pacífica na natureza, entres os animais e os seres humanos, porque não puseram terror para a não existência de 300 milhões de pessoas inocentes. Como naquela época da molecada da infância, na nossa Rua Monsenhor João Luiz. Havia ali um menino metido a valente, que o destino maldito parecia que sempre seguia os seus passos, para evitar que fosse um exímio caçador. Ele nunca acertava um tiro com a sua baladeira. Porque não tinha boa pontaria. Por mais que treinasse com o mais perfeito e potente estilingue, feito com malha de couro, tirada da alpercata do monstro Zebiu, e das tiras de câmara de ar de bicicleta ou de borracha, para medir pressão, que comprava na farmácia do Raí Torres. Com munição de seixos, que eram bolotas de barro endurecidas no calor do fogo das grelhas de tijolo, e dos pedregulhos arredondados que catava no leito do riacho Araibu. Nunca botou no bornal um pássaro abatido por sua baladeira. Não tinha pontaria para nada. Nem mesmo para matar um anum-alma-de-gato, um papa-lagarta, ou um besouro-cavalo-do-cão. Só não atirava em anum branco, porque dava azar. Nas caçadas de passarinho, nunca abateu um pássaro, nem mesmo um vem-vem. Por mais que treinasse a pontaria atirando nos urubus pousados nas cumeeiras das casas, na cabeça da Chica Doida e nas pernas das freiras do Patronato. Nem quando às escondidas, atirava na bicicleta verde da horripilante figura de batina preta do padre Valério, que disparava para cima, o revólver, para fazer medo à meninada. O sonho daquele menino era um dia matar com a sua baladeira, uma rolinha fogo-pagou ou um galo-campina. Como dizia: “um dia vou ter o prazer de acertar um tiro numa fogo-pagou só para ver o peneiro subir e ela cair aos meus pés.” A inveja que tinha era olhar para o cabo do estilingue dos outros meninos. Um bom atirador fazia um pequeno corte transversal no cabo da baladeira, para contagem de cada passarinho abatido. Isso era o sinal de boa pontaria. E se algum dia aparecesse com o cabo da atiradeira com alguma marquinha daquelas, todos sabiam que era mentira. Ele tinha uma péssima pontaria. Aquele menino era o negro Altaney, filho do Sargento Araújo, que morava na Rua Monsenhor João Luiz. Um dia, caçando pedregulhos à margem do riacho Araibu, surgiu o macumbeiro Roseno, e lhe disse: “para se ter uma boa pontaria é preciso matar um beija-flor e comer o coração cru, quando ainda tiver batendo.” O negro Altaney correu para o jardim da casa do Zé Delfino, juntamente com Mamá, Quartinha e o Bão. E chegando ao nicho ecológico, ficou maravilhado. O jardim florido estava repleto de pássaros, borboletas e beija-flores. Altaney mirou na ave, que quase encostou a atiradeira no beija-flor, que voava parado no ar. Quando com o enorme bico curvo, retirava o néctar da flor. E disparou no pobre pássaro. O tiro foi tão forte que o colibri sumiu entre as roseiras. Mas de imediato encontrou o chupa-mel, e rapidamente pegou o canivete, abriu o peito da ave, tirou o coração do beija-flor e engoliu-o de uma só vez. Depois, cheio de orgulho, estufou o peito com tanta alegria, que ao pousar uma rolinha fogo-pagou no galho de uma roseira, não deu tempo nem de abrir o bico para cantar. Altaney atirou e o peneiro subiu para a rolinha cair aos seus pés. Que com o mesmo canivete que abriu os peitos do beija-flor, fez a sua primeira marca: um corte transversal no cabo da baladeira. E ao olhar para os meninos, gritou: “eu sou o maioral.” Mas ao contar o que fez com o beija-flor, ao se confessar com o padre Pedro, o sacerdote esbravejou que o negro Altaney estava na lista dos seres mais desprezíveis e cruéis da face da terra. E que ele não era um ser humano, era um bicho, um criminoso terrível. Um assassino desalmado. E que no céu, ele nunca entraria. Altaney chorou muito. Era apenas um garoto, uma criança sem maldade. Será que só o padre Pedro teria direito ao reino do céu? Se ele sabia que todos nós somos assassinos! E que não existe um ser humano no planeta que não tenha cometido um crime terrível. E quem sabe do cometimento desse crime, é mais culpado ainda, pela plena consciência dos seus atos. Que se declarado insano, por algum júri, seria internado num hospital psiquiátrico. Curado das doenças mentais, declarado como são, poderia ser solto, ser preso, pegar prisão perpétua ou até pena de morte na cadeira elétrica. Sem imaginar que a verdade é a maior lei. Não existe crime perfeito. E muitos bestas pensam que são os santos do mundo. E sem nenhuma exceção, você que está lendo essa matéria, padre Pedro, o papa, esse memorialista e todos nós que fazemos parte desse planeta, provocamos, sem qualquer piedade, o pior terror da violência mais abominável da tragédia humana de todos os tempos. Todos nós somos cruéis e intoleráveis assassinos. Não adianta negar essa barbárie. A própria existência revela a prova do delito. Esse ato abominável, todo ser humano cometeu aqui na terra. Sem exclusão, nós destruímos vidas humanas sem derramar uma lágrima pelos irmãos que assassinamos. É estarrecedor dizer que todos nós, em potencial flagelo humano, só estamos vivos porque matamos nossos irmãozinhos para nascermos. É assombroso! E nessa terrível discórdia, eliminamos de 200 a 300 milhões de espermatozóides. Não é abominável? Nem o primeiro espermatozóide a chegar ao óvulo, e começar a furar as membranas desse óvulo, entra. Se algum retardatário mais resistente chegar depois do primeiro, entra, porque encontrou a metade do caminho feito. Somos bárbaros! Todos nós somos assassinos de beija-flor.

Airton Maranhão (in memorian)

.Originário de Russas – CE. Formado em Direito pela Universidade de Fortaleza – Unifor, advogado militante da Comarca de Fortaleza, e romancista. Livros publicados: Deusurubu, Admirável Povo de São Bernardo das Éguas Ruças. Romances: A Dança da Caipora, Os Mortos Não Querem Volta e O Hóspede das Eras. Membro da ARCA – Academia Russana de Cultura e Arte.

Airton Maranhão (in memorian)

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