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COLUNISTAS / AIRTON MARANHÃO (IN MEMORIAN)

As Arquitetas da Coaça de Russas

Óticas Diniz

Airton Maranhão (in memorian)

19/11/2013

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Durante muitas décadas, margeando a conhecida Curva do Caminhão mal-assombrado, na saída de Russas, de quem segue para capital cearense, existia um pequeno prostíbulo, em meio a um amontoado de casebres. E, com o passar do tempo, aquelas insignificantes moradias transformaram-se em bordéis. E desses prostíbulos de honrarias sexuais, de maléficos encantatórios, traições e infidelidade extra-conjungais, num marco de limite isolado dentro do lugarejo russano, nasceu a Coaça, definindo-se em vários cabarés. Como uma espécie de poço milagroso que se jogava moedas para realizar os desejos. Prostíbulos, que madames belas, elegantes, luxuosas e dependentes, como canibalescas serpentes das fertilidades sexuais, cobertas de pompas, obrigavam as prostitutas a fazer salão para atrair a clientela da orgia. A encantada Coaça não era sonho de irreal fabulatório. Era a festiva Torre de Babel dos prazeres, da sexualidade, da orgia e dos bacanais. Criada para atrair cretinos, salafrários, vagabundos, bêbados, boêmios, prostitutas e dançarinos de gafieira. Inferno escaldante que nem mesmo o General Cordeiro Neto, na época prefeito de Fortaleza - 1959-1963, intrometeu-se com o crescimento da Coaça. Cordeiro Neto era russano. Fechava-se a porta pesada do Céu! Quem vivia naquela zona, não se escandalizava mais com a devassidão. Mas a moça que perdia o cabaço, o pai não aceitava mais em casa. Algumas viravam puta e mudavam o nome. Uma moça só podia ser deflorada depois do casamento. E a ex-virgem só tinha duas alternativas: benzer-se diante da Pietá de Michelangelo ou virá prostituta. E aos sons celestiais da clandestinidade das madrugadas silenciosas, a Coaça recebia a seleta clientela da alta classe social da cidade russana. Comerciantes, políticos, estudantes, principalmente rapazotes para quebrar o cabresto da virgindade de quem nunca tinha tido relação sexual. Era um lugarzinho no Céu! Havia mulheres elegantes, novas, sexis e belas. Sem desprezar as quengas miseráveis, as requenguelas feias e as fuampas rabugentas. Quando padre Pedro dizia nos sermões: “a Coaça é a tumba da prostituição e o Purgatório dos homens casados”. Havia cabaré como Monte Carlo, do Mário Preto, chatô do Gonzaga, prostíbulo da Arabela, bordel da Boliviana, meretrício da Mundinha Miafaca, puteiro da Rosa Maria, cabaré da Chica do Baiano, que se suicidou virando uma tocha de fogo. Lupanar da Paloma, boate da Mineira, cortesã que parecia atriz Greta Garbo, cobiçada pelos rabos de burros Piru, Boêmio e Edmar Covarde. Lembremos da prostituta Eufrozina, famosa por transar com “peito ou sem peito”, no exercício do meretrício, e pela fama de possuir os seios maiores que os da Chelsea Charms. Da madame Dona do Quinquim, de vida luxuosa, que esbanjava riqueza a custa dos senhores dos laranjais e da cera de carnaúba. Coaça que chamava a atenção dos curiosos por causa do apetite sexual. Coaça que até o diabo evitava os prostíbulos dos pecados carnais, das tentações, das orgias e bacanais afrodisíacos. Do romper da honra, da fimose e da virgindade. Com medo de gerar bruguelo com uma mulher da vida, que fazia variedades de fantasias, mas não dava um beijo na boca do granfino, que arrebentava o cinto da castidade da rapariga bela, da quenga bonequeira e da fuampa amancebada. Pai de família que amava a esposa, mas não largava o cabaré. Zombava das prostitutas, mas não deixava a cópula maldita. Que tinha medo de pecar contra a castidade, mas não abandonava a carnalidade das terríveis doenças venéreas, advindas das meretrizes Frinéia, Aspásia e Messalina. A sociedade russana não aceitava meretriz andar no centro da cidade. As mulheres da vida irradiavam voluptuosidade para fazer desvirginar freira, beata e rapaz, virgem e moça ingênua. Que ignorância! O homem casado, somente freqüentava a Coaça, à noite, através do celerífero, veículo de propulsão humana usado naquela época, alugado pelo Zé Maia, que tinha uma oficina de consertar bicicleta, no Beco do Vicente Silva. O infernal meretrício de Russas, reduto de tabaréu, raparigueiro, malandro, cafetina, matrona e cáften, rodeado de birosca, boteco e de pequenos chatôs. Era diferente do cabaré do Mário Preto, que iluminava o salão com lampiões a gás, como o maquiavélico fogo do Apocalipse, nas exibições da dança infernal da gafieira. Ali foi assassinado a bala, quando dançava, o famoso valentão Chagas do Couto. Lamparina esfumacenta, clareava os quartos putrefatos dos bufelos amorosos e dos pecados do adultério. As festas eram animadas pelo Edilson Sanfoneiro, com a orquestra “Edilson e Seu Conjunto”. Integrantes: Toin (cantor), Assis Curema (pandeirista), Tabajara (baterista), Edilson (acordeonista), Concílio (saxofonista). E os dançarinos de tango, maxixe e gafieira, que animavam a Coaça de Russas, eram o fanfarrão Zé do Canário, o boçal Zé da Onça, o engraxate Dilira e o fenomenal cantor Tabica, imitador do Valdik Soriano. Picirica, que era o mais famoso gigolô dos prostíbulos russanos, só não surrava as amásias, porque o Cabo Guedes botava moral no recinto. Naquela época, dificilmente aparecia viado para soltar as tranças. Mas surgiram dois mariquinhas: Vicente Cozinheiro e Zé do Campo, que ao aparecer pelas ruas, levavam carreira do Cabo Lemo, do Caçote e da Chica Doida. Na Coaça havia dois time de futebol, o da prostituta Caçota, que entrava em campo com uma longa vara de lambe-nuvem de espanar igreja, a sacudir a sua encardida calcinha amarela. E o da meretriz Espingarda, que entrava em campo agitando um enorme corpete vermelho, preso a uma vara de marmeleiro. Cada rapariga exibia estandarte, representando a bandeira do time. Figurões da nossa sociedade assistiam às partidas das fuampas, que eram apitadas pelo russano Pifita, famoso juiz de futebol. Financiador de bebidas para as frenéticas torcidas, formadas de bêbados, desocupados, sirigaitas e alguns figurões, boêmios da terra de São Bernardo das Éguas Ruças. Depois do jogo, o fotógrafo Nêgo Leudo, com o seu lambe-lambe, batia fotos do times das jogadoras raparigas da Coaça. Com a calcinha da Caçota e o Corpete da Espingarda, hasteados nos mastros dos cabarés de Russas, símbolos dos times das prostitutas. No meio da torcida, Zé do Ouro aproveitava e vendia injeção de penicilina e benzetacil, para quem tinha esquentamento, cavalo-de-crista e mula. Coaça da Espingarda que usava navalha e cores extravagantes do rouge e batom, e que com ciúme do amásio jogou gasolina no corpo, riscou o fósforo e suicidou-se. Coaça onde a estapafúrdia Caçota, que portava a faca de descascar laranja, furtada do negro Mamede, transava com o irmão Caçote, pela metade do preço. Coaça das fortunas, das misérias e dos prazeres que despertou muitos amores nas arquitetas da Torre de Babel.

Airton Maranhão (in memorian)

.Originário de Russas – CE. Formado em Direito pela Universidade de Fortaleza – Unifor, advogado militante da Comarca de Fortaleza, e romancista. Livros publicados: Deusurubu, Admirável Povo de São Bernardo das Éguas Ruças. Romances: A Dança da Caipora, Os Mortos Não Querem Volta e O Hóspede das Eras. Membro da ARCA – Academia Russana de Cultura e Arte.

Airton Maranhão (in memorian)

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