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COLUNISTAS / AIRTON MARANHÃO (IN MEMORIAN)

Dimas Mateus - Violeiro e Cantador

Óticas Diniz

Airton Maranhão (in memorian)

05/11/2013

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A natureza somente transforma o destino de uma criança enjetada pelos pais biológicos, se o choro do recém-nascido for comparado ao impiedoso vagido de extrema recusa da espécie humana, para não habitar nesse mundo apocalíptico. Um vagido horripilante e melancólico, que se ouviu de uma casinha pobre, de taipa, onde os melões-de-são caetano como trepadeiras coloridas, subiam pelas paredes para cobrir o telhado do alpendre, lá do Sítio São Pedro, em Russas. Gemido de tamanha lamentação que despertou naquela localidade, os campônios, para ouvir o galo-de-campina, a rolinha, o sabiá, a juriti, a graúna, a casaca-de-couro e periquitos, com o pranto triste do nascer do poeta russano. Num inverno onde se ouvia o tagarelo dos sapos à beira do Açude Novo. Do cantar das marrecas entre as galinhas-d`água e socós, que se misturavam com o perfume do água-pé na Lagoa das Vacas. Onde a ventania como troça persistente, imitava no carnaubal o chiar dos carros de bois. A caipora com assobio de medo e terror, afugentava os caçadores, com o pio terrível das gralhas e dos corvos no milharal, que desafiava os gritos dos boiadeiros. Casinha humilde onde se ouvia estórias de lobisomem, de burrinha-de-padre e de mula-sem-cabeça, quando o agouro da rasga-mortalha acordava as almas penadas das encruzilhadas e das casas mal-assombradas. Onde o pôr-do-sol, como a fogueira do inferno, ocultava-se na escuridão da noite, com medo da luz da lamparina. Que ao findar o paraíso de pouco inverno, surgia a maldição do verão, como o inferno com a sua foice da morte, devorando a fartura da família dos pobres agricultores, para numa miséria extrema, chorar de fome e de sede, no uivar dos cães famintos. E, assim, para definir que aquela criança paupérrima, triste e abandonada pelos pais, com um ano e meio de idade, que crescia analfabeta, sob criação do primo de sua mãe biológica, de tempo a tempo, comia carnaubinha preta com as mágoas da roça, com o suor do cabo da enxada, com o fogo do ferro em brasa, mas, que um dia na profissão de ferreiro, confeccionou a ilusão do seu vagido, e calou a voz da sede do saber, que o proibia estudar na infância. Que pela dor sem fim, não o fazia sorrir e nem estudar, por obediência rigorosa dos pais adotivos. Que pela amargura constante, não aliviava a agonia, o sofrimento e a decepção. E por não mudar a trajetória do mistério de sua existência, nessa peleja da vida temerária, surgiu a profissão da viola, que por esse destino de violeiro e cantador, criou os seus filhos, com respeito e educação. Apesar de ter passado apenas dois meses na escola, a temer a palmatória, com as quatro operações de conta da tabuada na cabeça, aprendeu a ler sozinho à luz da lamparina. E esse admirável russano, que trabalhou como ferreiro, domou bigorna, martelo, cortou ferro e pedra ao meio-dia, sentado no pedregulho pegando fogo e calçou picareta para cavar buraco na terra infernal da seca terrível. Não podia ficar chorando a espera do velório de sua viola. Pelo vagido que ainda retumbava pelas terras de São Bernardo das éguas Ruças, não podia ser de outra pessoa, que não fosse do nosso grande poeta, cordelista, violeiro e cantador russano Geraldo Dimas Mateus, filho de Joaquim Mateus Pereira e Maria Pereira Mateus, casado com a Sra. Lúcia Sombra, que ganhou o pão de cada dia à custa das cantorias que fazia nas fazendas dos senhores abastados. Coisa que aprendeu sozinho, observando os cantadores de viola, lendo cordéis famosos, que de repente, muito novo, fez versos e cantou repente, a tornar-se um violeiro e cantador. Dimas ficou famoso com a parceria de Zé Matias, e passou a ganhar muito dinheiro. Mas caiu no vício de jogar roleta. Que maldição! Perdia tudo que ganhava nas cantorias. E quando foi morar em Fortaleza, para melhorar a vida, sem condição de sustentar a família, ao fazer o sinal-da-cruz, o vagido do recém-nascido explodiu num choro sem fim. Dimas caiu uma depressão profunda, e foi internado no Hospital Psiquiátrico Mira y Lopes, por dois meses. Depressão é uma doença terrível, e pode levar qualquer um à loucura se não for tratado com o trabalho. Mas, Dimas, não era louco e nunca foi doido. Porque entendo que a depressão, só não é loucura, para quem se ocupa com o trabalho. E como Dimas havia fundado a Casa do Cantador, no bairro Carlito Pamplona, em 1985, como sede da Associação dos Cantadores do Nordeste (ACN), com espaço de hotel, para receber os artistas da cultura popular nordestina, ao sair do hospital psiquiátrico, colocaram Dimas como tesoureiro na Casa do Cantador. E como diz Voltaire: “o único remédio para a tristeza é o trabalho”, Dimas se recuperou da depressão, trabalhando para a classe dos artistas cantadores que faziam a cultura popular nordestina. E sem ganhar um tostão, somente por prazer de trabalhar, por 30 anos está à frente da entidade da cultura popular. Apesar dos três casos de Acidente Vascular Cerebral, ao se curar da depressão, comemora aos 83 anos, dez mandatos como presidente da Associação dos Cantadores do Nordeste. Dimas Mateus nasceu no Sítio São Pedro, em Russas, e foi criado em Pedro Ribeiro, pelos pais adotivos Xavier e Etelvina. E foi adotado, porque seus pais biológicos não tinham condição de criá-lo. Por tal motivo, como uma tristeza terrível, carrega esse estigma na alma, pelo resto da vida, por nunca ter conhecido os seus genitores, Acreditando ainda no mistério que seu pai foi sepultado vivo. Porque ele faleceu de ataque cardíaco, as oito hora da manhã e foi sepultado às duas horas da tarde. E é nessa cisma, que o poeta prenuncia um ataque cataléptico, que leva a crer que tenha sido enterrado vivo, o pai do violeiro e cantador Dimas Mateus presidente da Associação dos Cantadores do Nordeste.

Airton Maranhão (in memorian)

.Originário de Russas – CE. Formado em Direito pela Universidade de Fortaleza – Unifor, advogado militante da Comarca de Fortaleza, e romancista. Livros publicados: Deusurubu, Admirável Povo de São Bernardo das Éguas Ruças. Romances: A Dança da Caipora, Os Mortos Não Querem Volta e O Hóspede das Eras. Membro da ARCA – Academia Russana de Cultura e Arte.

Airton Maranhão (in memorian)

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