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COLUNISTAS / AIRTON MARANHÃO (IN MEMORIAN)

O enigma do mendigo Zé Coió

Óticas Diniz

Airton Maranhão (in memorian)

15/10/2013

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Nenhum nascimento de aberração humana, que se monta com o tétrico cenário do corpo, no absurdo da vida cotidiana, tornará uma tragédia de danação horrenda, se o pensamento não o revelar como uma criação divina. Nesse ponto misterioso e no enigma de criaturas fantásticas, seria difícil contestar o mendigo Zé Coió, que sempre murmurava que preferia ter nascido sem braços e sem pernas, que seria mais feliz. Eu me apavorava com aquele pensamento horripilante do mendigo Zé Coió, que só andava de paletó, mendigando pelas ruas de Russas. Que como ele, não havia nada a diferenciar da fisionomia do maltrapilho e folclórico poeta Mário Gomes, que ainda perambula pela Praça do Ferreira, na capital cearense. Com toda função sagrada para a construção dos seres, eu nunca imaginava que uma pessoa poderia ser feliz, nascendo com monstruosas feições físicas. E qual seria o enigma do mendigo Zé Coió, ao rejeitar a criação do homem perfeito, na escolha de ter nascido sem braços e sem pernas, para somente ser feliz? Seria para não usar um punhal, um escudo, uma bazuca, uma escopeta, uma pistola, um rifle, uma submetralhadora ou uma caneta. E até para não tocar um triângulo, dedilhar um violão e correr com “As botas de sete léguas” de Monteiro Lobato. Ou como um ser sinistro ou sensível, para assobiar uma sonata de Beethoven, ou para nunca pintar a inscrição em sua lápide? E, assim, como se ele tivesse vindo do canto mais distante do universo, lembrei dessa preferência estranha do mendigo Zé Coió. Quando notei, que mesmo pequenino, o bebê Cauã, com o sorriso leporino que já se destacava como um encanto divino, embora com um olhar de pouca eternidade. Eu não acreditava que além das alterações danosas do organismo, Cauã havia nascido sem braços, sem pernas, com lábio leporino e problema cardíaco. E morreu aos dois meses de idade. E quando eu soube que Cauã havia morrido, chorei o líquido sagrado da lágrima, composto de água, sais minerais, proteínas e gorduras, produzidas pelas glândulas lacrimais. Chorei muito, porque me lembrei do que murmurava o mendigo Zé Coió. E lembrei mais ainda, do misterioso olhar de pouca vida, do anjo Acauã, que buscava a visão eterna do cosmo. Do impressionante sorriso leporino, que como sinal de comunicação universal, não mudava o seu original sentido, nem mesmo com os truques, que o mágico Hoidine usava para alegrar as pessoas tristes. Lembrei das mãozinhas que nunca afagaram o rosto de sua mãe. Que nunca acenderam uma vela na escuridão. Que não foram estendidas para tomar a bênção ao seu pai. Mãos que deixaram grafados nos livros sagrados dos santos, nos papiros dos faraós e nas enciclopédias do universo, os hieróglifos indecifráveis dos escritos do seu nome: Cauã de Oliveira Almeida. Que não deixou em silêncio, a sua voz meiga, para bradar aos deuses, a perfeição do sorriso dos nascituros, para não nascerem com os lábios leporinos. Que nunca pode dizer a sua mãe: “obrigado mamãe, por ter-me deixado nascer com vida”. Dos pezinhos que nunca correram para brincar com as outras crianças. Mas que deixaram marcas profundas de suas pegadas nos caminhos do nosso berço inaugural. Que se permitirão partir pelas estradas da vida, sem pernas e sem pés, no registro da trilha de suas pegadas, pela subida dos degraus do céu. Eu chorei muito com pena do pobre Cauã, por ter nascido sem braços, sem pernas, com lábio leporino e problema cardíaco, sem entender o enigma do mendigo Zé Coió. Por toda construção do Universo, acredito que com toda anomalia, antes de morrer, sem falar uma palavra, Cauã tenha gritado para todo universo ouvir: “Faça-me uma caridade meu bom Deus, tome de conta da minha mãe Maria Gleiciane de Oliveira e do meu pai.” Eu chorei muito com a morte do Cauã, que nasceu de má formação congênita. Mas que sorriu para a vida com a esperança de olhar para o mundo, observar o voo dos pássaros, o sorriso das crianças e o pôr-do-sol. Mas parou de respirar no silêncio da voz, que nunca murmurou uma palavra. Sem mãos que nunca aplaudiram o gênio da arte de fazer rir. Sem os pés que nunca chutaram a bola que fez Pelé, o Atleta do Século. Que morreu sem andar na areia da praia, sem afagar uma flor. E, Cauã morreu! Morreu sem chorar uma lágrima de tristeza, porque não foi extirpado do ventre, com aborto. Porque não foi abandonado pela mãe, numa lata de lixo. Cauã surgiu dos sonhos inacreditáveis dos druidas e fadas. Nasceu sem atravessar as paredes como os fantasmas. Nasceu sem as visões noturnas dos mistérios espectrais. Nasceu sem a maldade das crianças abandonadas. Cauã não era um monstro, nem uma danação horrenda, nem uma mutação genética. Cauã era uma revelação divina. Mesmo sem mãos, sem braços, sem pernas e com um sorriso leporino, era um ser humano belo, único, diferente e encantador. Por isso, seu olhar ficou gravado nas minhas retinhas. Como lembrança de uma criança que não chorou pela deformidade. Mas suas lágrimas se transformaram no pranto derramado das cascatas, dos rios e dos mares, em forma de líquido puríssimo de joias, esmeraldas, pérolas, rubis, safiras e brilhantes. Porque morreu sem lástima. Enquanto muitos de corpo são, com as entranhas retalhadas pelas navalhas sinistras, ocultam-se por trás da sombra da vergonha, por trás da ira do inconformismo, por trás dos defeitos da virtude, da aparência fantasmagórica do corpo e das mazelas da alma. Que não choram para não derreter o véu da falsidade, da infelicidade e da tristeza, que não mostra o rosto maldito de Asmodeu, Belzebu, Azazel, Belial, e outros diabos terríveis, que só pensam na beleza atraente, pela magia dos faraós, pelas orações de São Cipriano e pela charlatanice do pastor Edir Macedo, escavando a tumba real, sem nunca definir o enigma do mendigo Zé Coió.

Airton Maranhão (in memorian)

.Originário de Russas – CE. Formado em Direito pela Universidade de Fortaleza – Unifor, advogado militante da Comarca de Fortaleza, e romancista. Livros publicados: Deusurubu, Admirável Povo de São Bernardo das Éguas Ruças. Romances: A Dança da Caipora, Os Mortos Não Querem Volta e O Hóspede das Eras. Membro da ARCA – Academia Russana de Cultura e Arte.

Airton Maranhão (in memorian)

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