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COLUNISTAS / AIRTON MARANHÃO (IN MEMORIAN)

Anjo da morte - disfarçado de mendigo em Russas

Óticas Diniz

Airton Maranhão (in memorian)

05/09/2013

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Por mais miserável, nefasto, estranho e nebuloso que seja o trapo semovente do submundo dos patéticos, dos dementes e dos seres penumbristas, com toda dignidade, não devemos temer essas feras humanas com escárnio e rejeição. Mas, resguardar a vulnerabilidade do corpo, com a máxima estratégia de blindagem antifuzil, para evitar os metais degenerativos. Proteger a alma com potente bolha de vidro antiarmas químicas, por causa do envelhecimento precoce. Obscurecer a visão do cérebro, para não vazar dados secretos ao país do Tio Sam. Emudecer a voz, na proteção de privacidade, para não revelar as conversas telefônicas de Graham Bell. Evitar as transmissões na internet, para não ser expectante no mundo da espionagem. Devemos clarear o fogaréu dos disparos do rifle papo-amarelo do Rei do Cangaço, que faiscava constantes lavas de fogo. Mérito essencial, que fez o cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, ser cognominado de Lampião. Que fez o alemão Joseph Mengele, o “Anjo da Morte” falecer no Brasil, e não ser esse país, o lugar onde realizou as suas terríveis experiências médicas, no campo de extermínio de Auschwitz. Mas, não podemos desacreditar que por trás de figuras maltrapilhas, possa ocultar a mente de um impiedoso facínora, as mãos assassinas de um carrasco temível, o bisturi de um médico diabólico, com o cérebro de um criminoso nazista. “Avis rara” no terror da camuflagem da arte mágica. Estereótipo na mesma similaridade do truque, que disfarçava o “Anjo da Morte”, no silêncio de falso mendigo. Sabe por que os mágicos nunca revelam seus segredos? Toda mágica tem truque. Como a magia do político ladravaz. Como o encanto da víbora do demônio. Como o feitiço da mulher devassa. Mas, nunca como a mágica do loroteiro Rantizau Pobre, que caminhava sobre a superfície das águas da lagoa Caiçara, gritando para o cemitério: “acoooorda Raimundo Mamãããã!” Como Bocão, filho do Sobreira do hotel, que urrava com fome: “quero uma abacataaaaada!” Como Pé-de-Chubo, com as botas de sete léguas, gritava: “saaaaí do meio Laudiêêêêêta!” Como o mentiroso Moacyr, da bodega, na invenção estrambótica da pedra de fogo que voava na Av. Dom Lino, bradou: “olha a igreeeeeja” e a pedra subiu, para cair no mar da Canoa Quebrada. Como o coveiro Jabatão revelou que os mortos do Cemitério dos Bons Aflitos, roncavam dia de finados. Como o psicodélico Mala-Veia, que ao remendar suas roupas coloridas, transformava-se em lobisomem, para transar com a Rita do Maneiro. Como a Dudu do Patronato, apaixonou-se pela foto da Marilyn Monroe. Como o canoeiro Chico Rés fazia caretas, ao ouvir no rio Jaguaribe, o canto da sereia. Como a Chica Doida ficou mais doida, quando o Dr. Zilzo demoliu a igrejinha histórica de São Bento do Tabuleiro dos Negros, construída por índios e escravos. Como Assis do violino fazia serenata com Zé Bolinha da sanfona e o cantor Tabica, imitador do Valdik Soriano. Como João Pequeno, gritava: “Piruuuuu! bota essa booooola pro meio do muuuundo, feeeladapuuuuuta! Piru driblava na área, matava a bola no peito e dava banho de cuia nos atacantes. E não como o “Anjo da Morte”, que no absurdo dos mistérios, ocultou o monstro açougueiro, distante dos caçadores de nazistas. Porque naquele tempo não havia implante de microchips, com Marca da Besta, para colocar no cérebro dos maltrapilhos, por dissimular o duplo-ser. Como o maquiavélico doutor Josef Mengele, infame médico nazista, que no disfarce de mendigo apareceu em Russas, no alpendre do velho grupo escolar, defronte do Posto do Elder Moreira. Nunca esqueci a face, o olhar, o sorriso e o rosto daquele estranho que vi na minha juventude. E ao descobrir quem era o desconhecido, adoeci, temendo o aspecto facial que gravei na adolescência. Fiquei em silêncio, com medo. Embora fosse um monstro, não esqueci seu olhar brando, seu sorriso lívido num perfil tranquilo, disfarçado. O dentista Dr. Estácio, e minha mãe Osmira, que residiam perto do grupo escolar; Tio Joel, Janu, beata Adália, seu Deco das tapiocas, enfermeiro Róseo e Dr. Dalton, pediam aos meninos da Monsenhor João Luiz, para levar alimentos para o estranho mendigo, que não falava nada, apenas cantava esquisitas canções. Em 1977, fiquei apavorado com um sujeito de olhar brando e sorriso lívido, vestido com roupas brancas de médico, e luvas brancas, circulando no laboratório de anatomia da Universidade de Fortaleza. Que medo! Eu estudava e trabalhava na Unifor. Sem dúvida! Era o mendigo que dormia no grupo escolar, perto de minha casa. Contei para o Eliezer Guilherme, hoje advogado, que então trabalhava comigo no Setor Pessoal. Contei ao major Gondim, braço direito do chanceler Edson Queiroz, que aquele homem, vestido de roupas brancas de médico, era um maltrapilho que eu havia conhecido em Russas. Major Gondim sorriu, e disse: “Airton, nesse mundo, tem muita gente parecida”. Sem me concentrar no trabalho, pedi demissão do emprego. Em 1983, com muita honra, formei-me em Direito, na Unifor. Mas, em 1985, com a identificação do corpo do doutor Josef Mengele, que morreu de ataque cardíaco em 1979, vendo as fotos estampadas nos jornais, fiquei apavorado. Era o “Anjo da Morte” da equipe de pesquisa do Instituto Nazista de Biologia Hereditária e Higiene Racial, médico oficial junto a SS (Schutzstaffel), tropa de esquadrão de proteção de Hitler, polícia secreta que desencadeou terror em nome do nazismo. Doutor Morte, Açougueiro, Anjo Exterminador e Anjo da Morte.

Airton Maranhão (in memorian)

.Originário de Russas – CE. Formado em Direito pela Universidade de Fortaleza – Unifor, advogado militante da Comarca de Fortaleza, e romancista. Livros publicados: Deusurubu, Admirável Povo de São Bernardo das Éguas Ruças. Romances: A Dança da Caipora, Os Mortos Não Querem Volta e O Hóspede das Eras. Membro da ARCA – Academia Russana de Cultura e Arte.

Airton Maranhão (in memorian)

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