Previsão do Tempo

RUSSAS

25ºC

COLUNISTAS / AIRTON MARANHÃO (IN MEMORIAN)

Zé Vitório O terrível sacrástico

Óticas Diniz

Airton Maranhão (in memorian)

26/07/2013

Enviar por e-mail
Imprimir notícia

É muito difícil compreender as complexas formas do ser esquisito, estranho e absurdo, pela infernal desonra do leito conjugal, quando melancólico e maquiavélico, carrega para sempre sobre os ombros, a maldição criminosa do instinto multisecular da traição. Para sobreviver diante do coração adulterino, a fervilhar tenebroso no abismo sideral, com os cornos quentes e perfurantes, que transformaram num bicho-homem dos mais imbecis e  rancorosos, por não saber ovacionar a honra manchada de sangue, no presságio dos seus agouros dolorosos e funestos. Que nos faz lembrar os urros terríveis dos leões famintos do circo-máximo de Roma, com os brados do abominável, comovente e dramático Zé Vitório. Pelos feitiços sanguinolentos dos cornos nebulosos entre os cabelos em desalinho, que não pode ocultá-los e nem evitar que o sino a repique, e denunciasse na cidade, a cruel traição. Nem mesmo no envoltório de papel celofane, nem mesmo no silêncio das messalinas. Por conta dos cornos eriçados como brasas acesas, que enfeitavam a sua cabeça, que transformou num caga-raiva a versejar amargura, tristeza e impropérios ofensivos pela dor cruel e alucinante. Talvez Zé Vitório tenha esquecido as coisas mais atrativas que as mulheres adoram na vida conjugal: as surpresas amorosas, as viagens românticas, presentes inesquecíveis, jantares à luz de velas e as belíssimas flores? Ah! Sim, as flores! Conheço mulher que deixou o amado, porque nunca recebeu uma flor! Foi essa a causa do ódio geral, do trágico desamor do antológico russano, ao representar o Monumento Solarius, conhecido popularmente como a Estátua do Chifrudo. Zé Vitório, baixinho, moreno, magro, valente e escroto, era filho de Joaquim Vitório Flor, que trabalhava no corte de olho de carnaúba, para o finado João Cordeiro. Mas, Zé Vitório, não fazia nada. Ao contrário, só tomava cachaça, se embriagava, e esculhambava. E quem não pagasse, era chamado de corno. E apanhar por isso, mais do que o Zé Vitório, não existiu outro em Russas. Quando entrava num bar cheio de ricaços, indagava: “Só pobre é, que é corno, é?” A gritar: “Vocês pensam que sou cachaceiro? Que sou vagabundo? Que sou um pé-rapado? Pode pensar magote de corno! Eu sou é pedreiro!” Tomava uma cana e se deitava no meio da rua. E quem quisesse que se livrasse do corpo, para não matá-lo atropelado. Aceso na labareda da traição maldita, para não enterrar o coração na tristeza, perambulava pelas ruas e bares, com os chifres maculados. Impotência sexual, não foi. Porque gritava sempre: “Fui corno, mais sou macho”. E como fantoche e a alma em pranto, macambúzio, intratável e irreconhecível, embriagado aos tombos, escandalizava, provocava e insultava todo mundo de Russas. Zé Vitório, com o comportamento depravado no descalabro dos arrogantes e devassos, não respeitava coronel, delegado, padre, rico, pobre e ninguém. Um dia, Zé do Ouro ao passar perto do Zé Vitório, este gritou: “Côrno!” Zé do Ouro voltou, e perguntou: “O que disse?” Zé Vitório chegou perto do vendedor de miçanga e repetiu: “Côrno!”. Zé Vitório apanhou, levou chute, foi esmurrado e continuou. “Zé do Ouro, côrno, côrno, côrno, côrno, e pronto. Você é côrno, côrno, côrno.” Explodia como dinamite, pólvora e nitroglicerina, para fazer correr apavorado: menino, gato, cachorro, jumento beata e padre. E com aquela gritaria, fechava as portas do comércio, janelas das casas e das igrejas, por onde passava. O berro mal-afamado de “côrno” tanto perturbava, como estrondeava por toda cidade: “Magooooote de côôôôôôôôno!” O vozeirão era alto, como ator interpretando ópera. No exagero, lembrava o barítono Caruso, que quebrava vidraça com seu cântico. Assim gritava pelas ruas ao passar embriagado, com a velha carroça. A imitar a legendária figura do Tarzan Johnny Weissmuller: “Magooooote de côôôôôôôôno!” Um dia prenderam Zé Vitório, por conta dos ofensivos e humilhantes palavrórios. E quando o delegado Araújo passou perto da cela, Zé Vitório gritou: “Côrno!”. O delegado olhou para aquele sujeito medievalesco, aproximou-se e indagou: “Falou alguma coisa?” Zé Vitório com as mãos nas grades, gritou: “Côrno!” Dr. Araújo, grosseiro e destemido, abriu a cela e meteu a sola no pavoroso Zé Vitório. E ao sair da cela, aporrinhado com aquele maldito, Zé Vitório bradou no seu grito de Tarzan: “Deleeeeegaaado côôôôôôôôno!” Dr. Araújo, voltou, puxou o revólver e apontou para a cabeça do Zé Vitório. E este, olhou para o delegado, e gritou: “Atiiiiira seu côôôôôôôôno!” DR. Araújo era novato na cidade, não conhecia Zé Vitório. E ao saber da curiosa e terrível figura, popularizada como orador do insulto, da crítica e da manifestação irônica da sátira aberrante, disse: “O policial que prender Zé Vitório, vai ficar preso no lugar dele.” Dr. Araújo soltou Zé Vitório. E este, ao sair do quartel,  gritou: “Deleeeegaaado côôôôôôôôno!” Sem se envergonhar dos chifres pontiagudos, com a voz estridente de grande talento dramático, odiado por céticos e aplaudido por cômicos, Zé Vitório morreu no atrevimento do grito: “Magooooote de côôôôôôôôno!”

Airton Maranhão (in memorian)

.Originário de Russas – CE. Formado em Direito pela Universidade de Fortaleza – Unifor, advogado militante da Comarca de Fortaleza, e romancista. Livros publicados: Deusurubu, Admirável Povo de São Bernardo das Éguas Ruças. Romances: A Dança da Caipora, Os Mortos Não Querem Volta e O Hóspede das Eras. Membro da ARCA – Academia Russana de Cultura e Arte.

Airton Maranhão (in memorian)

DEIXE O SEU COMENTÁRIO

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião da TV RUSSAS. É vedada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. TV RUSSAS poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema da matéria comentada.
PUBLICIDADE | ANUNCIE

VITRINE

REDES SOCIAIS

  • Facebook
  • Twitter
  • Soundcloud
  • Youtube

©2009 - 2017 TV Russas - Conectando você à informação

www.tvrussas.com.br - Todos os direitos reservados