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COLUNISTAS / AIRTON MARANHÃO (IN MEMORIAN)

O extraordinário Monstro Zebio

Óticas Diniz

Airton Maranhão (in memorian)

14/06/2013

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Incontestavelmente, Russas é um excelso memorial de fatos inauditos e de figuras estranhas. Refletida numa paisagem humorística de assombrosas personalidades de criação excêntrica, no caminhar lento dos preguiçosos, de autônomos diabretes de espírito maligno. Espiando das janelas dos duendes apoiados em bengala. De santos com olhar atônito de herege. De almas penadas, que perambulam sob a névoa crepuscular do riacho Araibu, e da fantástica lagoa Caiçara, no sopé do Tabuleiros dos Negros. Como lugrubremente arrastava os pés cobertos de pelugem escura, a criatura descomunal do monstro Zebio. Divino fantasmal, que não era a fúria de vendaval, o cataclismo da desgraça, a impressão nefasta do mal, o segredo encantado dos urros das feras. Apenas a proporção da feiúra desumana, sem explicação morfológica, que permitia assustar a fisionomia compensadora da mais divina beleza disforme. Um tipo humano de traços fisionômicos, que somente surgia através do mito, das lendas e dos roncos medonhos. Que somente existia por curiosidade do mistério das superstições grotescas da bestialidade. Pelo esplendor das entidades incognoscíveis, psicodélicas e demonológicas, como indivíduo de poderes maléficos e malditos. Como praga infernal, de estranho monstro que causa antipatia, medo e assombro com feições fantasmagóricas de gastura. Com olhos esbugalhados de Minilua, orelhas enormes de verdugo, voz rouquenha de exorcista, movimento maquinado de robô, gestos de ganzá de cego, sestros e ticos de debilóide. Com diabólicas gargalhadas de rasga-mortalha, horripilantes resmungos de tristeza, noturno olhar de queixume e o bocejo da lúgubre bocarra. A morada do monstrengo ficava perto do casario do Zé Bem Bem, à margem do riacho Araibu. E conta a vizinhança da casa de taipa: nas noites de tempestade, batia-lhe na porta um corcunda com um saco nas costas. Zebiu abria a porta, botava o saco para dentro e o corcunda sumia na escuridão. Um dia, o poeta Batente, que morava ao lado do covil do besta-fera, através do buraco da fechadura, observou Lalá, mulher da fera diabólica, tirar do saco: casaca-de-couro, alma-de-gato, cavalo-do-cão. E os condimentos: coentro, cebolinha, tomate, couve e melão-de-são-caetano. Tudo, para o jantar depois da tempestade. “Ah! maldito!” Não se tratava de entidade semi-diabólica, por vaguear entre as catacumbas mal-assombradas. Seria coisa imutável? Pensa que pretendo eviscerar lobisomem, saci pererê, mula-sem-cabeça, caipora, burra-de-padre, como coisas de aparições de inspirador de lendas fantásticas, de silfo temível, de efeitos dramáticos da narrativa a rigor? Quem não conheceu o monstro Zebio? Na arte de identificar aparições malqueridas, no pavor insanável, com o mesmo aspecto de características reais? E não, fantasticamente, de forma desprotegida dos encantos maquiavélicos que possuía o gigantesco animal. Mas em Russas, surgiu a figura abismável do monstrengo Zebio, a arrastar os pés pelas escuridões apavorantes. Quem conheceu o inofensivo Zebio, conta da existência pavorosa daquela abominável criatura. Ser modelado do manto trevoso dos seres esquisitos. Irascível, feio e monstruoso, avultado num fenômeno único, inexplicável e traiçoeiro. Que não aparentava aspecto de malfazejo, com bocarra de engolidor de espadas, com uivos temíveis de Mefistófeles. Sinistro, por aparentar-se como figura desconhecida e mórbida. Por desdobrar-se pela noite, na angústia que excita medo, na tristeza que aterroriza e assombro, na alegria que arrepia morto-vivo a espreitar da escuridão. E que por sua monstruosidade, bem que poderia pensar que se tratava de um bestial. De um nefasto. De um monstro santelmo, sem certidão de nascimento, carteira de identidade e título  de eleitor. Apenas uma casa de sapê, a mulher Lalá e o apelido “Estralacu”. Como coisa sobrenatural, fantasmagórica, trasgo, avantesma, aparições diabrais com bocejo assustador. Russas gerou esse motejo colossal, o monstro Zebio! Se ninguém tivesse conhecido a fera, seria difícil a crendice. Na terra do poeta Francisco Carvalho, do General Cordeiro Neto e do Bandido Fernando da Gata, perambulava o esquisito, repelente, monstruoso, horrendo, de aspecto disforme e estranho! Animal incompreensível de ignorância, obscuridade horrível e reputação sinistra, com apelido de Estralacu? Por que a repugnante alcunha? Por exalar odores nauseabundos, misturados com querosene e enxofre. E quando soltava os gases embebidos com tais combustíveis, ouviam-se explosões terríveis! E labaredas, que a princípio, pareciam tocar-lhe fogo no fundo das pesadas calças remendadas. Que fazia Zebio em desespero, arrastar os pés com esturros de dor e gemidos dolorosos. Para a meninada gritar: “Estralacu!” Um dia, o Estralacu amanheceu morto. No seu enterro, quando o padre Pedro viu a turma da Monsenhor, prestes a entrar na igreja com o Estralacu num caixão, sem tampa, jogou água benta, e gritou: “Fora, fora, extrema-unção é a preparação para a morte.” Correu e trancou a porta da igreja. E numa tarde de chuva fina, fizemos o enterro do Zebio, que nunca jogou uma pedra no sino da igreja, mas, o padre Pedro, sim, esse fez maldades, destruiu todo o patrimônio arquitetônico da igreja matriz.   

Airton Maranhão (in memorian)

.Originário de Russas – CE. Formado em Direito pela Universidade de Fortaleza – Unifor, advogado militante da Comarca de Fortaleza, e romancista. Livros publicados: Deusurubu, Admirável Povo de São Bernardo das Éguas Ruças. Romances: A Dança da Caipora, Os Mortos Não Querem Volta e O Hóspede das Eras. Membro da ARCA – Academia Russana de Cultura e Arte.

Airton Maranhão (in memorian)

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