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COLUNISTAS / AIRTON MARANHÃO (IN MEMORIAN)

Bárbara de Alencar na Lagoa Caiçara

Óticas Diniz

Airton Maranhão (in memorian)

28/05/2013

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Lá pelos longitudinais do dia vinte de maio de mil oitocentos e dezessete, o terrível capitão de milícias e juiz ordinário Joaquim Pinto Madeira, conduzia ao tirano Governador Sampaio, os revoltosos Liberais Republicanos que foram presos por castigo imposto pela Coroa Português. Com isso, iniciava-se no Crato a mais triste e torturante marcha de presos de toda história cearense. Presos que, carregando grilhões, foram jogados nos imundos calabouços do quartel da capital. Viajando de dia para o povo ver como eram os revoltosos revolucionários do liberalismo e da república que participaram da revolução. Como José Martiniano de Alencar, que foi preso juntamente com os seus familiares: a mãe Bárbara de Alencar, irmãos, tios e primos. Que na comitiva fúnebre, que saiu do Crato para o Icó, passou por Solonópole, São Bernardo de Russas, para finalmente findar no calabouço do quartel da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Depois de muitas léguas de penosa e torturante viagem, o famigerado capitão de milícias Joaquim Pinto Madeira, surgiu sinistramente em São Bernardo de Russas, à frente do cortejo que desfilava triunfantemente com soldados armados de cavionetes e espingardas. Conduzia os prisioneiros de fama terrível de impatrióticos, inclusive a heroína Bárbara de Alencar. Com vigília na retaguarda fortalecida pela ferocidade cruel dos índios armados de arco e flecha, a ranger os dentes com assombro. A população russana, atarantada com a aparência de má catadura de tristeza, fadiga e sofrimento dos prisioneiros, no cortejo de quem era conduzido para o cemitério, chorava num sentimento de piedade e solidariedade. Ainda mais ao sentir uma ferocíssima pontada de morte, com o passo cadenciado dos cavalos, no retinir insistente das correntes presas nas argolas em volta do pescoço dos prisioneiros, que desciam até o tornozelo. Somente a heroína Bárbara de Alencar, montada no seu cavalo Asa Branca, não era conduzida ao cárcere com argolas amarradas no pescoço. Pouco distante da civilização indígena, no Tabuleiro dos Negros, ao descer o morro de areia branca, os olhos da heroína perscrutaram uma magnífica lagoa. Quando de súbito se ouviu um grito: “- Parem!” - ordenou Pinto Madeira. Os prisioneiros de afeições amargas, mas com traços característicos de sertanejos bravos e fortes, ainda mostravam vestígios de coragem e força sobre-humana. Pararam, desmontaram e olharam para aquela imensa lagoa que a natureza aperfeiçoou com o cinzel do gênio escultor do belo e do inigualável. “- Essa é a Lagoa Caiçara de São Bernardo de Russas!” - disse Pinto Madeira. A revolucionária Bárbara de Alencar, ao desmontar do cavalo Asa Branca, com as lágrimas descendo pelo rosto, chamou a atenção de todos que estavam presentes. Ela olhava fixamente para o lago, com uma atenção concentrada. Um sorriso de triunfo espasmódico surgiu nos seus lábios, quando de joelhos passou a banhar-se lentamente. No momento, quando as lágrimas da heroína Barbara de Alencar se misturavam com as águas da lendária lagoa, o céu do Tabuleiro dos Negros tingia-se de um tom róseo, como um crepúsculo da cor de sangue. Ela sabia que não poderia fugir da justiça da Coroa Portuguesa. Mais cedo ou mais tarde, o peso traiçoeiro daquela lei maldita iria levá-la para a forca ou para o fuzilamento. Aquelas lágrimas da revolucionária cratense, de 57 anos de idade, não eram de convencimento, arrependimento e nem medo de olhar nos olhos do carrasco que iria executar a sua sentença de morte, por enforcamento. Nem do mirante da arma, que ficaria a uma distância de seis passos para prostrá-la como um cadáver, por fuzilamento. Como antever o futuro, o comandante Conrado Jacob Niemeyer gritar: “- Fogo!” Como foram fuzilados no Passeio Público, da capital cearense, os rebeldes, padre Gonçalves Inácio Loiola Albuquerque Mororó (padre Mororó), na manhã do dia 30 de abril de 1825. Coronel Pessoa Anta, na manhã do dia 01 de maio de 1825. Padre Miguel Pereira Ibiapina, executado uma semana depois, na mesma Praça dos Mártires. Depois, Luiz Inácio de Azevedo Bolão, que não morreu com a descarga das carabinas, somente depois com uma fulminante coronhada que lhe esfacelou o crânio. E o último a ser fuzilado, foi Feliciano José da Silva Carapinima, no dia 25 de maio de 1825. Esse republicano suportou a primeira descarga das carabinas, mas como atacado pelo sintoma da raiva de cão hidrófobo, ergueu-se da cadeira atônito, com uma força gigantesca e espatifou as amarras, e no sentido de criatura que não quer morrer, rodopiou na Praça dos Mártires, a gritar, gemer e chorar diante da esposa e desmaiou num sentimento de dor, piedade e solidão. Enquanto o facínora aterrador comandante Conrado Jacob Niemeyer, ordenou que um soldado fosse buscar munição no quartel, o qual carregou a carabina e deu o tiro de misericórdia. Antes de tudo isso acontecer, Bárbara de Alencar chorava as suas lágrimas em nossa Lagoa Caiçara, por lembrar-se de ter nascido no dia 11 de fevereiro de 1760, em uma fazenda, na casa-grande da Caiçara. Que indiscutivelmente, por tal coincidência, a heroína revolucionária, mãe de José Martiniano de Alencar, que se tornou pai de José de Alencar, autor do romance Iracema, bem que poderia ter inspirado a narrativa do renomado romancista, para que ao invés do cenário da Lagoa de Messejana, a índia Iracema se banhava na Lagoa Caiçara de São Bernardo de Russas.

Airton Maranhão (in memorian)

.Originário de Russas – CE. Formado em Direito pela Universidade de Fortaleza – Unifor, advogado militante da Comarca de Fortaleza, e romancista. Livros publicados: Deusurubu, Admirável Povo de São Bernardo das Éguas Ruças. Romances: A Dança da Caipora, Os Mortos Não Querem Volta e O Hóspede das Eras. Membro da ARCA – Academia Russana de Cultura e Arte.

Airton Maranhão (in memorian)

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