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COLUNISTAS / AIRTON MARANHÃO (IN MEMORIAN)

Nemésio - O Pistoleiro da Baladeira

Óticas Diniz

Airton Maranhão (in memorian)

23/04/2013

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O que consagra uma cultura propriamente antropológica são as figuras e os tipos mitológicos de uma região, com os episódios dramáticos, irônicos e inacreditáveis. Que tanto faz de um grande vulto da sociedade das sombras, de um nobre falsário da vida comum dos excluídos ou da biografia hilariante de um lisonjeiro como exímio atirador de baladeira. Todos são heróis de peripécias, dos dramas trágicos do mistério da vida. Que tecem histórias, consagrados como figuras prototípicas do prosaico sociologico, necessário a grafar com privilégio o enaltecimento da sua faceta histórica. Como a de Nemésio Simplício da Costa, filho de Pedro Simplício da Costa e Francisca Ferreira Lima, casado com Delci Pereira da Costa, com quem teve os dois filhos: Nilson e Neuma. Nemésio, sujeito forte de estatura alta, cabelo liso e penteado para trás, como contador de estória de trancoso, inventor de causos mondongueiros e de charadas encantatórias, não havia igual. Além de ser extraordinário no irreal fabulatório, inteligente sem armar fojo nem tecer arapuca, era um inigualável mecânico. Lia muito, falava com propriedade e escrevia corretamente. Bondoso e carismático ajudava as pessoas simples. E dessa forma especial atraía curiosos ao seu redor, para ouvir fanfarronice e vê as presepadas. A arte do exímio atirador de estilingue era fazer a própria baladeira, com pequena forquilha de madeira, com elástico, para atirar com bila de ferro, de aço e de bolota de barro, feita por sua filha Neuma. Por ser original, verdadeiro e único, não tolerava imitador. E para quem zombava de sua pontaria, tornava-se um pesadelo e botava para correr com disparos de bila de ferro, sem errar o alvo. Deixava os meninos apavorados: “corram, lá vem o pistoleiro da baladeira”. Na sua impostura de tipo jocoso, indescritível e raro, somente para provocar risos e assistir a queda, atirava no mocotó dos moninos que caíam aos saltos acrobáticos, no lamento da mãe-da-lua. Nemésio trabalhava na fábrica de Guaraná Tupy, de propriedade do Sr. João Lopes, na Rua Cel. Perdigão Sobrinho. Onde havia uma sala chamada de laboratório, trancada a sete chaves, para ninguém copiar ou surrupiar a fórmula secreta do xarope do Guaraná Tupy, inventada pelo próprio Nemésio. No outro lado da mesma rua da fábrica, próximo ao Beco do Zé Lulu, existia uma venda de café de propriedade do Sr. Emídio, que todas às tardes sentava num banco a fumar cachimbo. Nisso desafiaram Nemésio a apostar que não acertava na cabeça do cachimbo do velho Emídio. Com aposta casada, puxou do bolso a baladeira, esticou e atirou na cabeça do cachimbo que voou longe, deixando seu Emídio com os dentes doloridos, por dias. Nemésio pegou o apelido de pistoleiro da baladeira, por atirar tão bem com o seu estilingue, com uma pontaria melhor que a do bandido Jesse James. Protótipo mais significativo desse fora-da-lei, figura biografada diversas vezes no cinema, por ter a vida retratada em livros, filmes, gibis e tornar-se popular no folclore mundial, como o gatilho mais rápido do Oeste Americano. Por tanta estapafúrdia, surgiu o desafio dos ases do gatilho de São João do Jaguaribe. Cada pistoleiro com seu revólver e Nemésio com a sua baladeira, para acertar na tampa de refrigerante jogada para o alto. Das dez tampas girando pelo ar, uma a uma, o pistoleiro da baladeira não errou um só tiro, enquanto os profissionais do gatilho, por uma só vez, não atingiram o alvo. Motivo da fama do mencionado apelido. Nemésio era tão apaixonado pela pontaria e trajetória do bandoleiro fora-da-lei, que botou o nome do seu cachorro de Jesse James. Que por coincidência ou culpa da judiciosa sina, o seu animal de estimação tornou-se um grande ladrão, como Jesse James, do Velho Oeste dos Estados Unidos. E Nemésio, com intenção realista de biriteiro, para tira-gosto, piscava o Jesse James para buscar peixe na feira. Com pouco tempo Jesse James voltava com o peixe carregando nos dentes. No escuro, ia ao mercado comprar carne e verdura, com as compras feitas colocava a bolsa na boca do cachorro, e este corria para sua casa, à margem do riacho Araibu, "azunhava" a porta, e dona Delci abria para receber as compras. Noutra, botava um ovo na boca do Jesse James e piscava para deixar em sua casa. O cão para não quebrar o ovo, estirava suas patas para o ovo escorregar. Outra façanha era atirar nos pombos da caixa d’água do mercado público, para tira-gosto com cachaça. Quando o pombo caía ao chão, Jesse James corria, pegava a presa com os dentes e entregava ao amigo. Esse filho de Pedro Simplício, da localidade de Timbaúba, no sereno da boca-da-noite, colocava uma bateria de carro na garupa da bicicleta, acendia uma luz incandescente, e saía pelas estradas aos berros animalescos, para assombrar a matutada em polvorosa. O incrível era a mágica que fazia para eliminar feitiço. Desenhava o cão na lente da lanterna, e ao acendê-la, mostrava que o leigo estava com catimbó. E para tirar a bruxaria, o esconjuro e o mau-olhado, apagava a lanterna. E ao chegar numa birosca, com um vidro cheio de vaga-lumes, amarrado numa vara de espanar chalé, soltava berro animalesco, para cobrar do matuto, pagamento pela claridade da luz da lua. Contam que com uma funda botou ao chão o touro brabo que circulava o Poço do Velho André, em mira certeira como do fundibulário Rei Davi, que derrubou com uma pedrada na testa, o filisteu Golias. O que fascinava o pistoleiro da baladeira era desafiar a pontaria com tiro certeiro. Ao passar por uma beata, ele dava psiu, e se recebia rabissaca, mirava a atiradeira, e arrancava o gigolete da cabeça da papa-hóstia. Acordava bêbados e vira-latas com disparos de bomba de parede. Derrubava sibite no voou, morcego fazendo ziguezague e mergulhão sobre o riacho Araibu. Nem o pistoleiro Nilson Cunha atirava melhor com o seu revólver, que o Nemésio com a sua baladeira.

Airton Maranhão (in memorian)

.Originário de Russas – CE. Formado em Direito pela Universidade de Fortaleza – Unifor, advogado militante da Comarca de Fortaleza, e romancista. Livros publicados: Deusurubu, Admirável Povo de São Bernardo das Éguas Ruças. Romances: A Dança da Caipora, Os Mortos Não Querem Volta e O Hóspede das Eras. Membro da ARCA – Academia Russana de Cultura e Arte.

Airton Maranhão (in memorian)

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