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COLUNISTAS / AIRTON MARANHÃO (IN MEMORIAN)

Lopinho, o cego iluminado

Óticas Diniz

Airton Maranhão (in memorian)

04/04/2013

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Acredito que a luz do cego, seja a música do pássaro que voa do cérebro pelas pálpebras das vias-lácteas do mistério, até o infinito do eterno. Por não enxergar como o cego Lopinho, no seu espaço estrelar com as minúcias técnicas do tato, que faz refletir a noção clara da luz do seu mundo escuro e vazio. Porque nas trevas dos meus olhos, fulgura o vestígio da luz, que só me faz enxergar porque sou mais cego com a visão do universo. Por isso escrevo com a linguagem profunda e enigmática da escuridão, que oculta o princípio da criação, gritando como Osvaldo de Ibsen: “Mãe, dá-me o Sol!” Por não saber quem sou, de onde vim e como nasci no mundo. Mesmo a expiar a imagem no espelho do ontem, admirar o esplendor do pôr-do-sol na primavera do amanhã e tentar desvendar o incognoscível diante do próprio epitáfio. O homem não vira lobisomem, mas venera o sobrenatural. Nessa visão obscura de anomalia mística, pensa que se distingue superior ao animal, porque pensa. E por causa da aceleração cósmica desse pensamento, considera-se uma intocável relíquia. Enxerga o sol, mas não sabe da energia escura do amanhecer no abismo do universo. Percebe a lua na imensidão do céu, mas não sente o anoitecer como um vácuo na penetração da natureza. Pressente que existe o brilho da existência, mas não visualiza a luz do cego. O cego com a percepção visual deflagra a escuridão com a mais precisa forma dedutiva. No entender porque a flor exala o perfume, porque o gato briga no telhado e porque o unicórnio não existe. Diferente do ser normal que zomba do coxo, do louco, do corcunda, do ser de agora e do não-ser de outrora. O cego não vê, mas observa o mundo a enxergar o homem com o pensamento. Não vê, mas enxerga com a habilidade do seu raciocínio. Não vê, mas tem o poder divino das visões da sintonia do tato. Assim, como enxerga o cego João Lopes Filho, descendente de João Lopes de Lima e Maria Osmarina de Freitas Lima. Casado com a senhora Hermilta Maria de Carvalho, com quem gerou os filhos: Lívia Daniele Lopes e Helton Daniel Lopes. Conhecido popularmente por Lopinho, que marcou história com o dom do discurso perfeito, de admirável e convincente oratória, como vereador do município de Russas, de 01/01/2001 a 31/12/2004. Que por cisma do destino, em 1983, começou a ficar cego, devido inflamação da conjuntiva ocular que atingiu a membrana transparente, que reveste a parte da frente do globo ocular. Que em 2007, deixou-o totalmente cego. Mesmo com auxílio de tudo que se diz respeito a cego, não obteve um efeito positivo. Feliz com a família, tendo como guia o filho Daniel e o genro Carlinho, diz que não tem nada a reclamar. Lopinho reside numa bodega na localidade de Pitombeira I, não muito distante do Cruzeiro do Zé Bem Bem e da milagrosa Maria das Quengas. Quando vereador, mandou reformar os mencionados cruzeiros, para receber a visita dos pagadores de promessas e perpetuar a memória dos misteriosos monumentos. Na bodega, despacha no pé do balcão. Vende miudeza, cerveja, cachaça e passa o troco diante do olhar do expectador que confere a quantia das moedas ou das cédulas repassadas. Na conferência da palavra do bodegueiro, no peso do fio de bigode ou no brilho da lambedeira, onde guarda essa majestosa proteção no lugar oculto que só a memória exige para um momento de aflição. Do vão da bodega para o quarto onde dorme e faz oração, existe uma rede armada que ao se locomover-se de vez, esquiva-se rápido como quem enxerga no meio do trânsito contínuo. Liga o som na tomada. Abre e fecha a geladeira para tirar cerveja, água ou refrigerante. Se um fumante quer acender o cigarro e não tem fósforo, ele enfia a mão por baixo do balcão e puxa um isqueiro. Se alguém pede uma cerveja, retira o abridor do prego da parede e abre a garrafa. Tem um caderno que anota o fiado e deixa recado para a esposa Hermilta. E há testemunhadores de casos mais incríveis. O cego Lopinho dirige o seu automóvel Ford Del Rey de Placas HVP- 5902-CE, pelas estradas de curvas no meio do carnaubal. E ao passar por um conhecido dá com a mão e grita: “como vai Moisés Felipe?” e segue em disparada deixando as pessoas abismadas sem entender como o cego Lopinho dirige, e ainda mais embriagado. É incrível! Ele tem um amigo de farra, de nome Zé Valdir, que sempre segue com ele dentro do carro. E quando aparece um buraco, um bêbado, uma curva, uma carnaubeira ou qualquer empecilho, Zé Valdir avisa ao amigo. “Lopinho, vamos passar na ponte” e o Lopinho responde “apruma o carro” e continua dirigindo com as duas mãos na direção. O acelerador, a marcha e o freio, são tudo por conta do cego Lopinho. Zé Valdir, como coadjuvante, sentado no banco do passageiro, com a mão esquerda na direção, apruma o carro. E quem se depara com aquela cena, não acredita como uma pessoa privada da visão, como Lopinho, possa guiar um carro. Que ao passar, ainda, grita na gozação: “Cuidado com a capotagem do lorel”. Pelo odor do feromônio, do barulho das pisadas, da tonalidade do som e da sonoridade da voz, ele enxerga o semelhante, o irracional e o invisível. E em caso de necessidade, basta bater-lhe à porta, à meia-noite ou a qualquer hora, que com a colaboração de Zé Valdir, presta serviço à comunidade, leva mulher para a maternidade, para dá luz e socorre doente de acidente. Constrói escada, cerca e mealheiro. Faz instalação elétrica, conserta o motor do carro e anda de bicicleta com outra pessoa na garupa. Acende o fogão, prepara comida e põe à mesa. Troca lâmpada queimada, faz caixão de anjo e sabe quando uma pessoa está com raiva. Lopinho convidou os cegos de Russas para confraternizar em um ambiente de alegria, paz e felicidade. Na festa, com famílias, filhos, amigos e parentes, compareceram 22 cegos, diante da mais célebre manifestação de sentimento fraterno. Para esse homem gigante, quero congratular com distinção e louvor, Lopinho o cego iluminado.

Airton Maranhão (in memorian)

.Originário de Russas – CE. Formado em Direito pela Universidade de Fortaleza – Unifor, advogado militante da Comarca de Fortaleza, e romancista. Livros publicados: Deusurubu, Admirável Povo de São Bernardo das Éguas Ruças. Romances: A Dança da Caipora, Os Mortos Não Querem Volta e O Hóspede das Eras. Membro da ARCA – Academia Russana de Cultura e Arte.

Airton Maranhão (in memorian)

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