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COLUNISTAS / AIRTON MARANHÃO (IN MEMORIAN)

A Tristeza imensa do florista

Óticas Diniz

Airton Maranhão (in memorian)

09/03/2013

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Sempre cuido em observar as pessoas com os mais sinceros agradecimentos da vida, que me concede a oportunidade de pronunciar a transparência extraordinária da existência histórica de cada ser humano, que descrevo com os fatos pitorescos, estranhos e ocultos de Russas. Pela ignorância do sonho que permanece vivo nos incompreendidos, enigmáticos e esquecidos do tempo que viveu, perfilando biografias alegóricas, sem conhecimento dos antropólogos, sociólogos e do arquivo da história. Como osonho da bailarina Pacarrete era fazer passeio de gôndolas em Veneza, Itália, cidade enamorada, romântica e misteriosa com suas pontes de sonhos, prédios históricos e monumentos antigos, bibliotecas, bares e restaurantes abertos à noite, onde gondoleiros simpáticos cantam e remam as gôndolas, com alegria. Mas em Russas só existia a canoa do Chico Rés, canoeiro esquisito, de caretas assombradas, cânticos melancólicos a contar lorota e remar a canoa, para atravessar o rio Jaguaribe, nas noites enluaradas, margeado de sombrias oiticicas, para lembrar o desaparecimento de parentes e amigos que morreram afogados na enchente do Orós. Quem passa de madrugada, nas noites de lua cheia, perto do cemitério, toma um susto de arrepiar ao se deparar com os mortos sentados no muro, olhando para a lagoa Caiçara. O sonho do Caçote era escalar a Catedral de Notre-Dame, de Paris, que inspirou o romancista Victor Hugo, autor das obras: O Corcunda de Notre-Dame e Os Miseráveis. Mas em Russas só havia a igreja Matriz, com o altar-mor destruído, e o Caçote subiu até a torre e pendurou-se na cruz de cabeça para baixo, tirou a camisa e xingou o clero, Vicente Silva, Coronel Zarlu, Coronel Amauri e o Coronel Eugênio, quando a polícia gritava: “desce Caçote, você tá preso”. E ele respondia: “tô preso, vemme buscar” e ao descer foi escoltado e preso pelo Cabo Guede e o soldado Amador. Quem procura a Cruz das Almas, para sonhar com botija enterrada, ouvirá tropel de cavalo, grito de vaqueiro e mugido de touro. Os três morreram ao mesmo tempo, naquele local mal-assombrado. O sonho do profissionalbancador de jogo de dados, o experiente Chico da Teté, era bancar o seu bozó no Cassino de Las Vegas, cidade erguida no meio do deserto do Estado de Nevada, nos Estados Unidos, onde se banca todos os tipos de jogos para os milionários do mundo. Mas em Russas só havia o Carrossel do Antônio da Marta, nas noites de festas, as quermesses do Padre Valério, com leilões, animados com a lábia do fantástico Rantizau Pobre e no cabaré, o famoso Monte Carlos, do tranqüilo Mário Preto. Quem passar defronte da casa do ricaço Zé Delfino, lembrará do sítio de laranjais, cheio de pássaros, e do jardim florido, repleto de beija-flor e borboletas, que circundavam sua casa. O sonho do valente Ball era desafiar os enfurecidos bovinos nas perigosas corridas de touros de Madri, na Espanha. Mas em Russas só existia o imundo e mal-afamado matadouro como arena da matança, em que toureiros eram os magarefes, que gritavam com salva de palmas na chegada afrontosa do espavorido demônio, com o diabo nos couros, que relutava contra a morte, diante do assombroso olhar dos urubus pousados nos telhados, e dos russanos com ânsia da fome igual das aves agourentas. O sonho do soldado Amador era despedaçar a cabeça do maníaco que quebrou a estátua Pietá de Michelangelo, imensa escultura de Jesus Cristo e sua mãe, Maria, onde sua cópia ficou exposta em Roma, desde que um louco tentou quebrar a original. Mas em Russas conseguiu apenas prender o Papa-Sepo, porque levou um copo do bar do Vicente Silva; Zé do Ouro porque trincou o espelho flamengo do viado Panamá e Negro Caboquim porque quebrou o pente do cabeludo Tremendão. Quem for à meia-noite ao cemitério, tomará um susto com a assombração de uma jovem mulher vestida de noiva, depositando flores na catacumba do bandido Fernando da Gata. O sonho do viado Sucupira era suicidar-se com um lindo buquê de flores, pulando numa tainha estrambótica, da ponte do rio Tejo, em Lisboa-Portugal, para ser filmado e observado do Cemitério dos Prazeres. Mas em Russas só havia a ponte do Pe. Valério, que nas enchentes ficava de plantão uma dupla de samangos, para a molecada não se aventurar com as bundacanascas, ao pular da ponte no riacho Araibu. Quem caminhar de madrugada pela Ilhota, há de se deparar com a alma do lobisomem, que o doido Zé do Dão matou, depois da briga feroz com o monstrengo. O sonho da beata Maria Bibia era conhecer o Santuário de Fátima, em Portugal, para cumprir as mensagens reveladas por Nossa Senhora, em uma das aparições, na Cova da Iria, à Jacinta, Francisco e Lúcia. Mas em Russas só existe o Cruzeiro da milagrosa mendiga Maria das Quengas,com os restos mortais encontrados dentro de um saco de estopa, porque foi degolada com uma machadada e esquartejada em pedaços. O sonho do moço Florista, que no contraste de sua cara de tristeza, vendia rosas brancas, amarelas, vermelhas e lindos buquês de flores, pelas ruas, igrejas e no cemitério de Russas, Dia de Finados, a declamar poesias do Poeta da Tristeza, Augusto dos Anjos, como esse poema intitulado Queixas Noturnas: “Bati nas pedras dum tormento rude/E a minha mágoa de hoje é tão intensa/que eu penso que alegria é uma doença/E a Tristeza é minha única saúde.” Era ter vendido flores dos Jardins Suspensos da Babilônia. Mas em Russas não existia mais beija-flor, nem sobrevoando nos bebedouros artificiais.  

 

Airton Maranhão 

Advogado Escritor  

Membro da Academia Russana de Cultura e Arte – ARCA 

Airton Maranhão (in memorian)

.Originário de Russas – CE. Formado em Direito pela Universidade de Fortaleza – Unifor, advogado militante da Comarca de Fortaleza, e romancista. Livros publicados: Deusurubu, Admirável Povo de São Bernardo das Éguas Ruças. Romances: A Dança da Caipora, Os Mortos Não Querem Volta e O Hóspede das Eras. Membro da ARCA – Academia Russana de Cultura e Arte.

Airton Maranhão (in memorian)

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