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COLUNISTAS / AIRTON MARANHÃO (IN MEMORIAN)

BIRITA e a Lei da palmada

Óticas Diniz

Airton Maranhão (in memorian)

05/01/2013

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Antigamente, quando não existia a Lei da Palmada, os alunos, por educação, respeito, medo e submissão ás ordens dos mestres-escolas, no festejo das formaturas, presenteavam os seus professores, com palmatórias. Isto no tempo em que as escolas primárias eram separadas para os meninos e para as meninas. O aluno tinha sempre que entrar na sala de aula antes do professor. E como discípulo, aguardar em silêncio o seu educador de olho na palmatória pendurada na parede, como aviso para aprender rápido o bê-á-bá e a tabuada, “de cor e salteado”, com respeito e educação. Fora da escola, os pais, educavam os seus filhos com palmatórias, palmadas e chineladas. Mas hoje, usar palmada é considerado crime. Basta uma simples palmada na bunda de uma criança para o pai ser algemado e preso. E se for como infrator temerário, será logo transformado num pai perigoso, para ser afastado do filho, do lar e do pátrio-poder, com a perca da guarda do menor. Para finalmente ser apenado a 4 anos de prisão, por ato degradante de maus-tratos, tratamento cruel e castigo corporal. Para falar a verdade, como memorialista, como escritor e principalmente como advogado atuante, desde que o projeto de lei contra a palmatória foi anunciado, por entender que cada processo há duas partes, uma que vai vencer e uma que vai perder, senti que a Lei da Palmada, seria um atentado contra o advogado. E um atentado contra o advogado é um atentado contra o Estado Democrático de Direito. Por que com a aplicação dessa lei, quem vai ganhar: o pai, com a punição de sua autoridade familiar, a criança sem freio, com uma educação impulsionada à impunidade da menoridade sem lei ou a sociedade para conviver com o surgimento de gerações desenfreadas de libertinos? O uso da palmatória pedagógica era a lei educativa que impunha ao pai como finalidade única: educar o filho com regra e freio, para o desenvolvimento da vida em defesa do Direito Natural. A criança sem freio e vigilância, liberta-se para as crueldades do mundo. Não teme, não obedece e torna-se criatura desalmada, insensível e calculista, a desvelar-se o animal embrutecido, solitário e esquecido pela humanidade. E sem escolha, fica entre ser demônio ou nada, distante da sociedade. Quando os castigos dado pelos pais eram tidos como exclusão da ilicitude, não havia falha na formação da criança. Apenas um simples olhar ou um aceno, ela obedecia com uma ordem pedagógica. A palmada não era violência doméstica. Agora, é crime. Na educação dos castigos antigos, nenhuma criança ou adolescente denunciava o pai, para ser preso por maus-tratos, internação por tratamento psicológico ou psiquiátrico. A criança atendia o castigo da palmatória, e obedecia porque estava amarrada aos princípios da sua liberdade e ao limite da finalidade. E a Lei da Palmatória, ao limitar o direito de corrigir dos pais, passou a fabricar monstros terríveis, sem regra e sem o alcance do ideal da justiça. E ao lembrar de pessoas que levaram palmadas e chineladas educacionais dos pais, inclusive da mãe, que atingiram a plenitude da finalidade da paz, da honradez e do cidadão, lembrei do Flávio Soares Lima, conhecido popularmente por Birita, o Rei do twist, e do iê, iê, iê da Jovem Guarda. Filho da Sra. Maria do Milton e do Sr. Milton Soares Lima, de cognome Volta Seca. Que desconheço que exista outra mulher, em Russas, considerada como educadora das mais exigentes, que tenha instruído os filhos debaixo de surra, igual à mãe do Birita. A Sra. Maria do Milton era conhecida como a mulher mais respeitada e exigente para a moral dos filhos. Não admitia qualquer falha por mais simples ou banal. Porque ela ia buscá-los na rua, na briga de meninos, nos bares, e em qualquer lugar, para levá-los para casa no açoite de chineladas na bunda. Nenhum deles se revoltava contra a mãe. Recordo uma vez quando o soldado Birita, seguia para o plantão policial no Quartel de Russas, e ao passar, fardado, em frente ao bar do Vicente Silva, parou para tomar umas pingas com o ricaço Luiz Pires. Maria do Milton, sabendo dessa façanha, correu para buscá-lo debaixo de chineladas. E o soldado Birita, apenas dizia: “perdoi mãe”. Assim, todos os filhos de Maria do Milton, criança, rapaz, homenzarrão, solteiro ou casado, apanharam sem dizer uma palavra ou esboçar qualquer gesto de reclamação. Educados sem a Lei da Palmada, conseguiram a trajetória do sucesso de homens de bens, de pessoas humildes, corretas e respeitadas em Russas. Zé do Milton e seu irmão Didi, tornaram-se famosos ao preservar por muitos anos, a história do bar do Vicente Silva. O Neto, com o comércio no Mercado Público, atraiu fregueses e amigos. Nêgo e Neno, empresários. Lulu, advogado. Birita, como falador que confundia os assuntos por ser pouco letrado, superou a necessidade de expressão, com modo gentil, inteligente e engenhoso de agradar coronel, comerciante e a alta cúpula dos boêmios de Russas. Birita tinha saída para tudo, esperto, enérgico, versátil e adaptável a qualquer ambiente com argumento mágico para mudanças repentinas, tornava-se superficial e incoerente. E como dançarino espetacular nas tertúlias do Colégio Flávio Marcílio, marcou época, fez sucesso e atraiu o público de seus fãs, como dançarino de twist na moda do iê, iê, iê. Uma vez, numa dessas tertúlias, dançando com uma jovem, de repente o Birita gritou: “ai, ai” levantando o pé. Assustada, a moça indagou o que foi, ele respondeu: “não foi nada”, Birita dançava com um sapato furado e ao pisar num cigarro aceso, gritou. Na festa que ocorreu em 1982, na cidade do Aracati, com a Banda Trepidants, a cantora, rainha do rebolado, Gretchen, sabendo da fama do Birita como dançarino de twist, chamou-o para o palco. Birita, dançando twist como coadjuvante da Gretchen, se rebolando, levantou a platéia aos gritos de: Biiirita! Biiirita! Biiirita! Quem levou palmada, lembra o filósofo Goethe: “Todo homem extraordinário tem certa missão”. 

 

Airton Maranhão

Advogado Escritor

Membro da Academia Russana de Cultura e Arte – ARCA

 

 

Airton Maranhão (in memorian)

.Originário de Russas – CE. Formado em Direito pela Universidade de Fortaleza – Unifor, advogado militante da Comarca de Fortaleza, e romancista. Livros publicados: Deusurubu, Admirável Povo de São Bernardo das Éguas Ruças. Romances: A Dança da Caipora, Os Mortos Não Querem Volta e O Hóspede das Eras. Membro da ARCA – Academia Russana de Cultura e Arte.

Airton Maranhão (in memorian)

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